Mulher borderline em psicoterapia

Recebi o diagnóstico de Borderline. E agora?

Laura Guerra – Psicóloga Clínica | CRP 01 8482

Receber um diagnóstico psiquiátrico nunca é apenas receber o nome de alguma coisa, porque junto com aquele nome chegam perguntas, lembranças, tentativas de compreender a própria história e, muitas vezes, um medo enorme do que aquilo poderá significar para o futuro. Quando o diagnóstico é Transtorno de Personalidade Borderline, esse impacto pode ser ainda maior, principalmente porque a palavra personalidade parece dizer algo definitivo sobre quem somos, como se o profissional não estivesse identificando um conjunto de dificuldades que podem ser compreendidas e tratadas, mas descrevendo a própria pessoa.

Talvez você tenha saído de uma consulta há poucas horas ou alguns dias com essa palavra na cabeça e, depois disso, tenha feito o que quase todo mundo faz: abriu o Google.

E então encontrou de tudo.

Encontrou listas de sintomas, vídeos descrevendo “como age um Borderline”, relatos de relacionamentos desastrosos, conteúdos que apresentam pessoas com esse diagnóstico como manipuladoras, instáveis ou incapazes de manter vínculos e, provavelmente, também encontrou informações contraditórias sobre tratamento, medicamentos e prognóstico. Em vez de compreender melhor o que estava acontecendo, talvez tenha ficado ainda mais assustada.

Por isso, antes de qualquer outra coisa, existe algo importante que eu gostaria de explicar: um diagnóstico de Borderline não é uma descrição completa de quem você é e muito menos uma previsão de como será o restante da sua vida.

Ele é uma hipótese clínica que organiza um conjunto de dificuldades que vêm se repetindo de determinada maneira e que, quando o diagnóstico foi bem realizado, ajuda o profissional e o paciente a compreenderem melhor o sofrimento e, principalmente, a decidir como tratá-lo.

Essa diferença parece pequena, mas não é.

O diagnóstico deveria explicar, e não condenar

Durante muito tempo houve bastante resistência entre profissionais de saúde mental em comunicar diretamente o diagnóstico de Borderline aos pacientes, em parte pelo estigma associado ao transtorno e em parte pela ideia de que saber o diagnóstico poderia piorar o quadro, provocar desesperança ou fazer com que a pessoa passasse a se identificar excessivamente com ele.

Essa maneira de pensar vem mudando.

A diretriz clínica mais recente da American Psychiatric Association recomenda que pessoas diagnosticadas com Borderline participem de uma discussão colaborativa sobre seu diagnóstico e tratamento, incluindo psicoeducação sobre o transtorno, e isso significa que o diagnóstico não deveria ser uma palavra entregue ao paciente no final de uma consulta, mas algo que precisa ser explicado, discutido e compreendido dentro da história daquela pessoa.

Eu considero essa conversa especialmente importante porque reconhecer os critérios de Borderline em si mesma pode ser uma experiência estranha. Algumas pessoas sentem alívio, porque finalmente encontram uma explicação para experiências que pareciam desconectadas entre si, enquanto outras sentem medo, vergonha ou até revolta, principalmente quando chegam ao diagnóstico depois de anos recebendo explicações diferentes para aquilo que viviam.

Pode ser que, pela primeira vez, alguém esteja colocando dentro de uma mesma compreensão coisas que você sempre percebeu separadamente: a intensidade das emoções, o medo enorme de perder determinadas pessoas, relacionamentos que oscilam entre proximidade e ruptura, impulsividade, períodos de vazio, raiva muito intensa, dificuldade de saber exatamente quem você é, automutilação ou crises que parecem desproporcionais quando vistas de fora, embora façam todo sentido quando estamos dentro delas.

O diagnóstico começa a ser útil quando essas experiências deixam de parecer uma coleção de defeitos pessoais e passam a ser compreendidas como parte de um funcionamento psíquico que pode ser estudado e tratado.

Mas será que o diagnóstico está correto?

Esta também é uma pergunta legítima, e receber um diagnóstico não significa que você esteja proibida de perguntar como o profissional chegou a ele.

O Borderline é um transtorno complexo e pode coexistir com depressão, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar, transtornos relacionados ao uso de substâncias, transtornos alimentares, TDAH, transtorno de estresse pós-traumático e outras condições, enquanto algumas dessas condições também podem produzir sintomas que, isoladamente, se parecem com aspectos do Borderline.

Por isso, uma boa avaliação não deveria se limitar à pergunta “você tem cinco dos nove critérios?”, como se estivéssemos preenchendo uma lista.

A própria APA recomenda que a avaliação inicial investigue não apenas as características centrais dos transtornos de personalidade, mas também sintomas psiquiátricos associados, condições que coexistem com o quadro, tratamentos anteriores, saúde física, contexto psicossocial, estado mental atual e presença de risco de suicídio ou autoagressão.

Além disso, personalidade pressupõe um padrão, e não apenas uma reação isolada a um período particularmente difícil da vida.

Isso significa olhar para a história.

Como você costuma reagir quando percebe que alguém importante está se afastando? Como são seus relacionamentos ao longo do tempo? Como você reage à rejeição, à frustração ou à sensação de não ser compreendida? Existem períodos em que você se sente muito diferente de si mesma? Essas dificuldades aparecem apenas em um relacionamento específico ou se repetem, de maneiras diferentes, em vários momentos da sua vida?

Um diagnóstico cuidadoso precisa fazer sentido quando colocado dentro dessa história.

Então, o que eu faço agora?

A primeira providência não é aprender tudo sobre Borderline em uma noite.

Na verdade, talvez seja justamente o contrário.

Existe uma quantidade enorme de informação disponível na internet e parte dela é boa, mas outra parte transforma um transtorno extremamente complexo em caricaturas comportamentais, como se todas as pessoas diagnosticadas com Borderline pensassem, sentissem e se relacionassem da mesma maneira.

Não pensam.

Duas pessoas podem preencher os critérios para o mesmo diagnóstico e apresentar dificuldades bastante diferentes, além de histórias, recursos emocionais, relações, condições sociais e outros transtornos completamente distintos.

Por isso, depois de receber o diagnóstico, uma das coisas mais importantes é começar a compreender como o Borderline aparece em você.

Talvez seu maior sofrimento esteja nas relações amorosas. Talvez esteja na sensação de vazio. Talvez sejam as crises de raiva. Talvez seja a automutilação. Talvez você consiga trabalhar, estudar e manter uma vida aparentemente organizada, mas se desorganize profundamente quando percebe alguma mudança em uma pessoa importante. Talvez aconteça exatamente o contrário e a maior dificuldade esteja em manter uma rotina, projetos e continuidade na vida.

O diagnóstico é o mesmo, mas o tratamento precisa encontrar a pessoa que existe dentro dele.

Procure tratamento, mas não procure uma terapia milagrosa

Hoje temos evidências bastante consistentes de que a psicoterapia é o principal tratamento para o Transtorno de Personalidade Borderline, e a diretriz da APA recomenda uma abordagem psicoterápica estruturada, apoiada pela literatura científica e direcionada às características centrais do transtorno.

Isso não significa, entretanto, que exista apenas uma psicoterapia capaz de tratar Borderline.

Uma revisão Cochrane que reuniu 75 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 4.507 participantes, encontrou redução da gravidade dos sintomas com psicoterapia em comparação ao tratamento habitual, além de evidências de benefício para outros desfechos importantes, embora a qualidade das evidências varie de acordo com o resultado analisado.

Uma revisão sistemática mais recente, publicada em 2024, analisou 25 estudos envolvendo 2.545 participantes e encontrou benefícios em diferentes formas de psicoterapia, sem evidência suficientemente forte para concluir que uma única abordagem seja superior às demais.

Existem tratamentos bastante estudados, como Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia Baseada em Mentalização (MBT), Terapia do Esquema e Psicoterapia Focada na Transferência (TFP), além de modelos estruturados de manejo clínico e outras abordagens psicoterápicas que vêm sendo investigadas.

Por isso, eu teria algum cuidado com afirmações do tipo “Borderline só melhora com determinada terapia”.

O que sabemos é que o tratamento precisa ter direção, coerência e compreensão das características do transtorno, porque não se trata simplesmente de conversar sobre aquilo que aconteceu durante a semana, nem apenas de apagar crises conforme elas aparecem.

É preciso compreender os padrões que produzem e mantêm o sofrimento.

E vou precisar tomar remédio?

Essa é outra dúvida muito comum, principalmente porque muitas pessoas chegam ao diagnóstico já tomando antidepressivos, estabilizadores do humor, antipsicóticos ou outros medicamentos.

Aqui existe uma distinção importante: medicamentos podem ser úteis para determinadas situações clínicas, mas não constituem o tratamento principal do Borderline.

A diretriz da APA de 2024 recomenda que, quando medicamentos psicotrópicos forem utilizados no contexto do Borderline, eles tenham objetivos específicos e mensuráveis, sejam usados como complemento à psicoterapia e sejam periodicamente revistos, levando em consideração também outros transtornos que a pessoa possa apresentar.

Isso acontece porque alguém pode ter Borderline e, ao mesmo tempo, depressão, transtorno de ansiedade, TDAH ou outra condição que também precise ser tratada, e nesses casos a indicação medicamentosa precisa considerar o quadro completo.

Portanto, a pergunta mais útil talvez não seja simplesmente “qual é o remédio para Borderline?”, mas “por que estou tomando este medicamento, qual sintoma ou condição estamos tentando tratar e como saberemos se ele está ajudando?”

Essa é uma conversa para ter com o médico que acompanha você.

Preciso contar para todo mundo que tenho Borderline?

Não.

Receber um diagnóstico não cria nenhuma obrigação de anunciá-lo às pessoas ao seu redor.

Talvez você queira conversar com alguém em quem confia, principalmente se essa pessoa participa da sua vida e poderá ajudá-la durante o tratamento, mas não existe razão para transformar o diagnóstico imediatamente em uma espécie de apresentação pessoal.

“Eu sou Borderline” também não precisa substituir seu nome.

Existe uma diferença importante entre dizer “eu tenho Transtorno de Personalidade Borderline” e começar a interpretar cada reação, escolha, emoção ou conflito como consequência inevitável do transtorno.

Você continua tendo uma personalidade que não cabe no diagnóstico.

Tem preferências, valores, história, inteligência, humor, desejos, contradições, capacidades, medos, talentos, experiências e maneiras particulares de estar no mundo que não estão descritas em nenhum manual diagnóstico.

O diagnóstico organiza uma parte importante do sofrimento.

Ele não explica a pessoa inteira.

Talvez algumas coisas comecem a fazer sentido

Depois que o diagnóstico é compreendido, pode acontecer uma experiência curiosa, porque você começa a olhar para situações antigas e perceber relações que antes não conseguia enxergar.

Talvez uma discussão que parecia ter começado por causa de uma mensagem não respondida tenha começado, na verdade, quando você sentiu que poderia perder aquela pessoa.

Talvez uma raiva enorme tenha aparecido alguns segundos depois de uma sensação muito mais difícil de suportar, como medo, vergonha ou rejeição.

Talvez aquilo que você sempre chamou de impulsividade tenha acontecido repetidamente quando a tensão emocional chegou a um ponto em que fazer alguma coisa imediatamente parecia ser a única maneira de interrompê-la.

E talvez você perceba também que algumas estratégias que hoje lhe trazem problemas tiveram, em algum momento da sua história, alguma função.

Compreender isso não significa justificar tudo o que fazemos, nem retirar nossa responsabilidade pelos efeitos que produzimos sobre outras pessoas.

Significa começar a descobrir o que acontece entre uma coisa e outra.

Entre alguém demorar para responder e você ter certeza de que será abandonada.

Entre sentir raiva e romper uma relação.

Entre sentir um vazio insuportável e fazer algo impulsivamente para não senti-lo.

É justamente nesse espaço, que inicialmente pode parecer inexistente, que grande parte do trabalho terapêutico acontece.

Você não precisa resolver sua vida inteira agora

Talvez esta seja uma das coisas mais difíceis depois de receber o diagnóstico, porque finalmente existe uma explicação e surge uma urgência enorme de mudar tudo.

Quero parar de sentir isso.

Quero nunca mais ter uma crise.

Quero aprender a controlar minhas emoções.

Quero consertar meu relacionamento.

Quero saber quanto tempo vai levar.

Só que tratamento psicológico não costuma acontecer dessa maneira, principalmente quando estamos falando de padrões emocionais e relacionais que foram sendo construídos ao longo de muitos anos.

A mudança costuma aparecer aos poucos e nem sempre onde imaginávamos.

Às vezes, a primeira mudança não é deixar de ter uma crise, mas conseguir perceber que ela está começando.

Depois, talvez seja conseguir esperar antes de mandar aquela mensagem.

Mais adiante, conseguir dizer “estou com medo de que você esteja se afastando” em vez de transformar o medo em acusação.

Em outro momento, conseguir atravessar uma frustração sem precisar terminar uma relação, abandonar um projeto ou machucar a si mesma.

Pode parecer pouco quando olhamos cada mudança isoladamente, mas é justamente assim que um funcionamento psíquico começa a se reorganizar.

E existe uma vida depois desse diagnóstico?

Existe, e aqui temos dados que considero muito importantes, porque durante décadas o Borderline carregou uma reputação de transtorno praticamente intratável, como se o diagnóstico significasse uma vida inteira de crises e relações caóticas.

As pesquisas de acompanhamento mudaram profundamente essa visão.

Uma revisão abrangente publicada em World Psychiatry em 2024 destaca que o Borderline é consideravelmente menos estável ao longo do tempo do que se acreditava e que estudos longitudinais encontram taxas importantes de remissão e recuperação.

No estudo longitudinal de Mary Zanarini e colaboradores, por exemplo, 50% dos pacientes atingiram, ao longo de dez anos, aquilo que os pesquisadores definiram como recuperação, que exigia não apenas remissão dos sintomas, mas também bom funcionamento social e profissional.

E os acompanhamentos continuaram.

Em um estudo publicado posteriormente, acompanhando essa coorte durante 24 anos, as taxas de remissão sintomática chegaram a níveis muito altos, embora a recuperação funcional continuasse sendo mais difícil de alcançar e manter, o que reforça uma distinção fundamental: deixar de preencher critérios diagnósticos e reconstruir plenamente a vida social e profissional não são exatamente a mesma coisa.

Portanto, eu não diria a alguém que acabou de receber o diagnóstico que o caminho será simples, porque provavelmente não será, mas também não lhe diria que acabou de descobrir uma característica imutável da própria personalidade.

As evidências não sustentam esse pessimismo.

Se você recebeu o diagnóstico há pouco tempo, comece por aqui

Tente não transformar os próximos dias em uma investigação desesperada sobre tudo o que existe de errado com você, porque o diagnóstico não exige que você compreenda sua vida inteira imediatamente.

Pergunte ao profissional que fez a avaliação quais características do seu funcionamento levaram ao diagnóstico e como ele compreende essas dificuldades dentro da sua história, procure entender se existem outros quadros associados que também precisam de atenção e converse sobre qual será o plano de tratamento, quais são as prioridades neste momento e o que vocês esperam modificar primeiro.

Depois, dê algum tempo ao tratamento.

Você provavelmente vai compreender coisas sobre si mesma que hoje ainda não consegue enxergar, e algumas delas podem ser dolorosas, enquanto outras poderão trazer um enorme alívio, principalmente quando comportamentos que sempre pareceram inexplicáveis começarem a adquirir algum sentido.

E, acima de tudo, tente não usar o diagnóstico como uma nova maneira de se condenar.

Borderline não significa que você seja manipuladora, impossível de amar, condenada a destruir seus relacionamentos ou incapaz de construir uma vida estável. Essas são generalizações que transformam sofrimento psíquico em identidade e que pouco ajudam alguém a compreender o próprio funcionamento.

O diagnóstico deveria fazer justamente o contrário.

Ele deveria nos permitir olhar para aquilo que antes parecia apenas caos e começar a encontrar alguma organização, porque quando conseguimos compreender melhor por que determinadas situações nos desorganizam, quais emoções aparecem, o que fazemos para tentar suportá-las e quais consequências essas respostas produzem, começamos também a descobrir onde podemos intervir.

Talvez, portanto, a pergunta depois de receber o diagnóstico não precise ser:

“Meu Deus, então eu sou Borderline?”

Talvez possa, pouco a pouco, se transformar em outra:

“Agora que eu consigo compreender melhor o que acontece comigo, o que podemos fazer a partir daqui?”

E essa é uma pergunta muito mais interessante, porque ela não fala apenas sobre diagnóstico.

Ela fala sobre tratamento, mudança e futuro.

Referências

American Psychiatric Association. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients With Borderline Personality Disorder. American Psychiatric Association Publishing, 2024.

Leichsenring F, Heim N, Leweke F, Spitzer C, Steinert C, Kernberg OF. Borderline personality disorder: a comprehensive review of diagnosis and clinical presentation, etiology, treatment, and current controversies. World Psychiatry. 2024;23:4–25.

Crotty K, Viswanathan M, Kennedy S, et al. Psychotherapies for the treatment of borderline personality disorder: A systematic review. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2024;92(5):275–295.

Storebø OJ, Stoffers-Winterling JM, Völlm BA, et al. Psychological therapies for people with borderline personality disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020.

Zanarini MC, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice G. Time to attainment of recovery from borderline personality disorder and stability of recovery: a 10-year prospective follow-up study. American Journal of Psychiatry. 2010;167(6):663–667.

Zanarini MC, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice G. Attainment and stability of sustained symptomatic remission and recovery among patients with borderline personality disorder and Axis II comparison subjects: a 16-year prospective follow-up study. American Journal of Psychiatry. 2012;169(5):476–483.

Zanarini MC, Temes CM, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice GM. Sustained Symptomatic Remission and Recovery and Their Loss Among Patients With Borderline Personality Disorder and Patients With Other Types of Personality Disorders: A 24-Year Prospective Follow-Up Study. Journal of Clinical Psychiatry. 2024.

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