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Quem tem Borderline pode melhorar? O que mostram as pesquisas

Laura Guerra – Psicóloga Clínica | CRP 01 8482

Receber o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline pode assustar. E acho que uma das razões para isso está na própria palavra personalidade.

Quando alguém recebe o diagnóstico de depressão, por exemplo, tendemos a imaginar que aquilo seja um estado do qual ela possa melhorar. Mas quando dizemos que existe um transtorno da personalidade, pode surgir uma ideia muito diferente: “Então eu sou assim. Se faz parte da minha personalidade, vou ser assim para sempre.”

Durante muito tempo, inclusive dentro da própria psiquiatria, o Borderline foi visto dessa maneira, como um transtorno grave, difícil de tratar e relativamente estável ao longo da vida. Hoje sabemos que essa ideia não corresponde ao que as pesquisas mostram.

E talvez esta seja uma das informações mais importantes para quem acabou de receber o diagnóstico: Borderline não é uma sentença sobre quem você será pelo resto da vida.

Pessoas com Borderline podem melhorar. Podem melhorar muito a um ponto em que já não preenchem os critérios diagnósticos para o transtorno.

Isso não significa que exista uma “cura” simples, nem que todas as dificuldades desapareçam. Isso significa algo concreto: os sintomas podem diminuir, as crises podem se tornar menos frequentes e menos intensas, os relacionamentos podem se tornar mais estáveis e a pessoa pode aprender maneiras muito diferentes de lidar com aquilo que antes parecia insuportável.

E nós sabemos disso porque algumas pesquisas acompanharam pessoas com Borderline durante dez, quinze e até vinte anos.

O que acontece com o Borderline ao longo dos anos?

Um dos estudos mais importantes sobre esse assunto foi conduzido pela pesquisadora Mary Zanarini e sua equipe, no McLean Hospital, ligado à Harvard Medical School. Os pesquisadores acompanharam 290 pessoas diagnosticadas com Borderline durante dez anos e os resultados são bastante diferentes da imagem que muita gente ainda tem do transtorno.

Ao longo desses dez anos, 93% dos participantes apresentaram uma remissão dos sintomas durante pelo menos dois anos. Mais impressionante ainda: 86% permaneceram em remissão por pelo menos quatro anos.

Aqui precisamos entender o que os pesquisadores chamaram de remissão.

Não significa que a pessoa nunca mais tenha medo de abandono, nunca mais se desregule emocionalmente ou nunca mais tenha uma crise. Significa que, naquele período, ela já não preenchia critérios suficientes para receber o diagnóstico de Borderline, isso muda bastante a maneira de pensar o transtorno porque significa que os sintomas que hoje parecem definir completamente a vida de alguém podem não permanecer com a mesma intensidade ao longo dos anos.

Outro grande estudo, coordenado por John Gunderson e colaboradores, acompanhou pacientes por dez anos e chegou a uma conclusão semelhante: o diagnóstico de Borderline mostrou-se muito menos estável ao longo do tempo do que se imaginava, os sintomas diminuíam e as remissões eram frequentes.

Quando pesquisadores reuniram os estudos prospectivos disponíveis em uma meta-análise — em vez de olhar apenas para um grupo de pacientes — encontraram novamente o mesmo fenômeno. A estimativa média de remissão foi de aproximadamente 60%, embora os resultados variassem bastante entre os estudos. De maneira geral, entre 50% e 70% das pessoas atingiam remissão ao longo de acompanhamentos que variavam de cinco a quinze anos.

Então podemos responder à pergunta do título deste artigo com bastante segurança:

Sim. Quem tem Borderline pode melhorar. E melhorar não é uma possibilidade excepcional. É algo observado repetidamente nas pesquisas de longo prazo.

Mas existe uma parte dessa história que precisa ser explicada.

Melhorar dos sintomas e reconstruir a vida não são exatamente a mesma coisa

Quando olhamos para esses estudos com mais cuidado aparece uma diferença muito importante entre remissão e recuperação.

Uma pessoa pode deixar de preencher os critérios diagnósticos para Borderline e ainda continuar tendo dificuldades importantes na vida.

Pode ter menos crises, mas continuar muito insegura nos relacionamentos.

Pode não se automutilar mais, mas ter dificuldade para trabalhar.

Pode controlar melhor a impulsividade, mas ainda sentir um vazio enorme.

Pode compreender melhor suas emoções e, mesmo assim, ter dificuldade para construir vínculos estáveis.

Foi exatamente isso que Zanarini e sua equipe encontraram.

Enquanto 93% dos participantes atingiram algum período de remissão sintomática durante os dez anos de acompanhamento, 50% atingiram o que os pesquisadores chamaram de recuperação.

Para falar em recuperação, não bastava diminuir os sintomas. Era necessário também apresentar bom funcionamento social e profissional durante pelo menos dois anos.

Essa diferença é muito importante porque nos ajuda a entender o que realmente significa tratar Borderline.

O objetivo não deveria ser simplesmente fazer alguém “perder critérios do DSM”.

É ajudar essa pessoa a construir uma vida que funcione.

Ter relações menos destrutivas. Conseguir estudar ou trabalhar. Suportar frustrações sem sentir que o mundo acabou. Perceber uma mudança no outro sem imediatamente interpretá-la como abandono. Conseguir sentir raiva sem destruir uma relação importante. Passar por uma crise sem precisar machucar a si mesma.

Em outras palavras: não basta sofrer menos. É preciso conseguir viver melhor.

E essa parte costuma levar mais tempo.

Alguns sintomas melhoram antes de outros

Também não devemos imaginar a melhora como uma linha reta, o Borderline envolve diferentes dimensões do funcionamento emocional e algumas parecem responder mais rapidamente do que outras.

Uma grande meta-análise que reuniu 87 estudos e 5.881 participantes encontrou melhora em todas as dimensões avaliadas, mas não na mesma velocidade. A gravidade geral do transtorno e a instabilidade afetiva apresentaram mudanças importantes, enquanto outras áreas, como impulsividade, raiva, dissociação e comportamentos suicidas ou de autoagressão, mostraram trajetórias diferentes e, em alguns estudos, mudanças menores. Isso ajuda a explicar algo que às vezes confunde pacientes e familiares, a pessoa pode estar claramente melhor e ainda ter crises. Pode passar semanas funcionando muito bem e, diante de uma situação emocional particularmente difícil, reagir de uma maneira antiga.

Isso não significa necessariamente que “voltou tudo ao começo”.

Uma das coisas que observo com frequência na clínica é que a mudança muitas vezes aparece primeiro na intensidade, na frequência e na duração das crises.

Talvez uma situação que antes provocasse três dias de desorganização emocional passe a produzir algumas horas difíceis. Talvez uma discussão que anteriormente terminaria em rompimento, impulsividade ou autoagressão ainda provoque sofrimento, mas a pessoa consiga pedir um tempo, pensar e retomar a conversa depois. O problema não desapareceu mas algo mudou na maneira de responder a ele, e isso também é melhora.

E a psicoterapia realmente faz diferença?

Aqui precisamos separar duas perguntas.

A primeira é: pessoas com Borderline melhoram ao longo da vida? A resposta, como vimos, é claramente sim.

A segunda é: a psicoterapia aumenta essa possibilidade de melhora? Também temos boas evidências de que sim.

Uma revisão Cochrane analisou 75 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 4.507 participantes. De maneira geral, as psicoterapias desenvolvidas ou estruturadas para o tratamento do Borderline reduziram a gravidade dos sintomas quando comparadas ao tratamento habitual. Também foram encontrados benefícios em funcionamento psicossocial e, dependendo da abordagem estudada, em automutilação e outros desfechos importantes.

Existem hoje diferentes tratamentos estudados para Borderline: Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia Baseada em Mentalização (MBT), Terapia do Esquema, Psicoterapia Focada na Transferência (TFP), abordagens cognitivo-comportamentais e tratamentos estruturados de manejo clínico, entre outros.

E aqui existe uma informação que considero especialmente importante, não parece haver uma única psicoterapia que detenha o segredo da melhora.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou benefícios em diferentes abordagens e concluiu que, com as evidências disponíveis, não é possível afirmar com segurança que uma única modalidade seja superior às demais. Uma meta-análise em rede publicada no ano anterior, reunindo 43 estudos e 3.273 participantes, chegou a uma conclusão semelhante: existem diferenças entre tratamentos em alguns resultados, mas muitas comparações ainda se apoiam em poucos estudos e precisam ser interpretadas com cautela.

Isso é importante porque, durante algum tempo, criou-se quase a impressão de que pessoas com Borderline precisariam necessariamente encontrar “a terapia certa” para poder melhorar, a literatura atual nos permite pensar de maneira mais ampla.

Mais importante do que procurar uma terapia milagrosa é encontrar um tratamento consistente, estruturado, realizado por um profissional que compreenda o transtorno e consiga construir com o paciente um trabalho de longo prazo.

Então o Borderline desaparece?

Eu teria cuidado com essa pergunta.

Porque ela ainda carrega a ideia de que existem apenas duas possibilidades: ou eu “tenho Borderline” ou estou completamente livre dele.

A vida psíquica não funciona dessa maneira.

Uma pessoa pode continuar sendo emocionalmente sensível sem viver permanentemente desorganizada por essa sensibilidade.

Pode continuar sentindo medo de perder alguém, mas aprender a reconhecer esse medo antes de transformar uma demora numa mensagem em prova de abandono.

Pode continuar sentindo raiva intensamente e não precisar agir imediatamente sobre essa raiva.

Pode perceber que está entrando em uma crise e saber o que fazer antes que ela tome conta de tudo.

Pode aprender a reconhecer os próprios estados mentais, compreender melhor o que acontece nas relações e desenvolver maneiras mais complexas de interpretar o comportamento das outras pessoas.

Talvez seja mais útil pensar que aquilo que antes acontecia automaticamente começa, pouco a pouco, a poder ser pensado.

E existe uma diferença enorme entre sentir uma emoção e ser completamente governado por ela.

A melhora também não significa nunca mais sofrer

Esse ponto merece ser dito porque algumas pessoas transformam o tratamento em uma nova cobrança.

“Eu já faço terapia há tanto tempo. Por que ainda fiquei tão mal?” Porque pessoas melhoram e continuam sendo pessoas.

Relacionamentos terminam. Pessoas importantes se afastam. Há rejeições, perdas, frustrações, conflitos e períodos em que ficamos mais vulneráveis. Para alguém com Borderline, algumas dessas experiências podem continuar produzindo emoções particularmente intensas, a questão não é construir uma pessoa que nunca mais se desorganize, é ampliar sua capacidade de perceber o que está acontecendo, suportar a emoção, pedir ajuda quando necessário e recuperar o equilíbrio sem precisar destruir a si mesma ou aquilo que é importante para ela.

Talvez uma das formas mais bonitas de perceber a melhora seja justamente esta: a vida deixa de ser uma sucessão de incêndios que precisam ser apagados.

Os problemas continuam existindo. Mas já não precisam incendiar tudo.

Se você recebeu o diagnóstico agora

Talvez você tenha chegado até este texto porque recebeu recentemente o diagnóstico de Borderline.

Talvez tenha pesquisado os sintomas, se reconhecido em muitos deles e ficado com medo.

Talvez esteja se perguntando como serão seus relacionamentos, se conseguirá construir uma família, trabalhar, estudar, amar alguém sem sofrer tanto ou simplesmente ter uma vida mais tranquila.

Eu não posso dizer como será a trajetória de uma pessoa específica. Nenhuma pesquisa pode, mas posso lhe dizer o que hoje sabemos sobre o transtorno.

O Borderline não apresenta, para a maioria das pessoas, uma trajetória inevitável de piora crônica. Pelo contrário: estudos que acompanharam pacientes durante muitos anos mostram altas taxas de remissão dos sintomas. Também sabemos que psicoterapia ajuda e que existem diferentes tratamentos capazes de produzir melhora.

Sabemos ainda que diminuir os sintomas costuma ser mais fácil do que reconstruir completamente o funcionamento afetivo, social e profissional. Por isso, tratamento não é apenas aprender a controlar crises. É também construir relações, autonomia, identidade, projetos e uma vida que faça sentido.

E talvez seja esta a informação que eu mais gostaria que alguém recebesse junto com o diagnóstico:

Borderline explica uma parte importante do sofrimento que você vive hoje. Não determina quem você será daqui a cinco, dez ou vinte anos.

O diagnóstico pode ser o começo da compreensão.

Não precisa ser o fim das possibilidades.

Referências

Zanarini MC, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice G. Time to Attainment of Recovery From Borderline Personality Disorder and Stability of Recovery: A 10-Year Prospective Follow-Up Study. American Journal of Psychiatry. 2010.

Gunderson JG, Stout RL, McGlashan TH, et al. Ten-Year Course of Borderline Personality Disorder: Psychopathology and Function From the Collaborative Longitudinal Personality Disorders Study. Archives of General Psychiatry. 2011.

Álvarez-Tomás I, Ruiz J, Guilera G, Bados A. Long-term clinical and functional course of borderline personality disorder: A meta-analysis of prospective studies. European Psychiatry. 2019.

Storebø OJ, Stoffers-Winterling JM, Völlm BA, et al. Psychological therapies for people with borderline personality disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020.

Setkowski K, Palantza C, van Ballegooijen W, et al. Which psychotherapy is most effective and acceptable in the treatment of adults with a (sub)clinical borderline personality disorder? A systematic review and network meta-analysis. Psychological Medicine. 2023.

Crotty K, Viswanathan M, Kennedy S, et al. Psychotherapies for the treatment of borderline personality disorder: A systematic review. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2024.

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