A ideia de uma “Psicoterapia de Baixo Custo Emocional” é um conceito que, embora possa parecer atraente à primeira vista, revela uma compreensão superficial do processo terapêutico e de suas exigências intrínsecas.
Quando alguém procura psicoterapia, geralmente espera aliviar o sofrimento, compreender melhor o que está vivendo e encontrar maneiras menos dolorosas de se relacionar consigo mesma e com os outros. É natural desejar que esse processo traga alívio. O que nem sempre fica claro, porém, é que a psicoterapia não produz mudanças profundas sem mobilizar aquilo que a pessoa aprendeu a evitar, silenciar, racionalizar ou repetir sem perceber. Nesse sentido, falar em “baixo custo emocional” não significa falar de atendimento gratuito, valor social ou preço acessível. O custo ao qual me refiro é psíquico: o esforço interno necessário para entrar em contato com aspectos de si que, durante muito tempo, permaneceram protegidos por defesas, sintomas e modos habituais de funcionamento.
Há tratamentos que podem ser financeiramente acessíveis e, ainda assim, emocionalmente exigentes. Também existem terapias caras que pouco mobilizam o paciente quando o processo se mantém superficial. O valor cobrado pela sessão e a profundidade do trabalho são dimensões diferentes. Uma psicoterapia de valor social não é uma psicoterapia menor, assim como pagar um preço elevado não garante transformação. O que define a implicação emocional é a qualidade do encontro terapêutico, o compromisso com o processo e a disposição para examinar aquilo que se repete na própria vida.
A psicoterapia começa a se aprofundar quando a pessoa deixa de falar apenas sobre o que os outros fizeram e passa, aos poucos, a perceber como participa das situações que a fazem sofrer. Essa passagem costuma ser delicada, porque não significa culpabilizar o paciente nem ignorar as violências, perdas ou injustiças que ele viveu. Significa reconhecer que, mesmo quando não escolhemos o que nos aconteceu, desenvolvemos maneiras de sobreviver, interpretar e responder ao mundo. Algumas dessas formas foram necessárias em determinados momentos, mas podem continuar operando muito tempo depois, limitando escolhas, vínculos e possibilidades de vida.
Na perspectiva psicanalítica, os sintomas não são simples falhas que precisam ser eliminadas. Eles carregam uma função e frequentemente representam tentativas de organizar conflitos que ainda não puderam ser pensados de outra maneira. A ansiedade pode manter a pessoa em alerta diante de perigos que já não estão presentes. A raiva pode protegê-la de sentimentos de dependência, humilhação ou desamparo. A submissão pode preservar um vínculo vivido como indispensável. A impulsividade pode interromper estados emocionais que parecem impossíveis de suportar. Quando a terapia começa a tocar nessas construções, o paciente pode sentir que está perdendo algo que, apesar de causar sofrimento, também funcionava como proteção.
É por isso que o desconforto terapêutico não pode ser entendido apenas como um obstáculo. Em muitos momentos, ele indica que algo anteriormente mantido à distância começou a adquirir forma. Freud já mostrava que há uma tendência a repetir, na vida e na própria relação terapêutica, aquilo que não pôde ser lembrado ou elaborado. A pessoa não chega à sessão trazendo apenas uma história para ser contada. Ela traz modos de se defender, de confiar, de desconfiar, de agradar, de atacar, de desaparecer ou de exigir do outro determinadas respostas. Esses modos passam a aparecer também na relação com a terapeuta.
Marion Minerbo descreve a transferência como uma atualização do funcionamento psíquico dentro da relação analítica. O paciente não apenas conta que teme ser abandonado; pode interpretar um silêncio, uma mudança de horário ou as férias da terapeuta como sinais de afastamento. Não apenas relata que precisa agradar; pode começar a esconder discordâncias para ser considerado um “bom paciente”. Não somente fala sobre relações em que se sente ignorado; pode viver a terapeuta como alguém que nunca oferece atenção suficiente. A psicoterapia se torna transformadora quando essas experiências podem ser observadas enquanto acontecem, sem serem imediatamente desmentidas, confirmadas ou transformadas em novas rupturas.
Esse trabalho exige implicação emocional porque a pessoa precisa tolerar, por algum tempo, não saber exatamente quem está certo, qual é a resposta definitiva ou como eliminar rapidamente aquilo que sente. Em vez de agir impulsivamente, romper o vínculo ou buscar uma solução imediata, ela é convidada a permanecer em contato com a experiência e a pensá-la junto com a terapeuta. Bion valorizava justamente essa capacidade de suportar o desconhecido sem preencher rapidamente o vazio com explicações tranquilizadoras. Aprender a permanecer diante de uma emoção antes de descarregá-la é uma aquisição psíquica importante, mas raramente confortável.
Winnicott também ajuda a compreender por que o processo terapêutico precisa de tempo, regularidade e continuidade. Certas experiências internas só podem emergir quando existe um ambiente suficientemente estável para que a pessoa se arrisque a baixar algumas defesas. O vínculo terapêutico não serve apenas para confortar. Ele oferece uma base a partir da qual o paciente pode experimentar sentimentos contraditórios, reconhecer agressividade, dependência, inveja, medo, desejo e ressentimento sem precisar dividir a si mesmo entre partes completamente boas e completamente ruins. Essa integração produz alívio, mas antes pode gerar estranhamento, vergonha e resistência.
Nas organizações borderline, esse trabalho pode ser especialmente intenso porque partes da experiência emocional permanecem pouco integradas. A pessoa pode amar profundamente alguém e, diante de uma frustração, sentir que nunca foi amada. Pode perceber-se forte e capaz em um momento e, pouco depois, sentir-se completamente vazia ou quebrada. Na terapia, essas partes também aparecem separadamente. Em uma sessão, a terapeuta pode ser vista como a única pessoa capaz de compreender; em outra, como indiferente, incompetente ou abandonadora. O objetivo não é eliminar essas oscilações por meio de correções rápidas, mas ajudar a paciente a reconhecer que sentimentos contraditórios podem coexistir sem destruir a relação nem a própria identidade.
A terapeuta também realiza um trabalho emocional importante. Ela precisa receber projeções, suportar afetos desconfortáveis e distinguir aquilo que pertence aos próprios conflitos daquilo que está sendo mobilizado pela relação. Muitas vezes, a compreensão não se organiza inteiramente durante a sessão. Fragmentos do encontro continuam sendo pensados depois, quando a terapeuta revê o que sentiu, percebe repetições, estabelece ligações e procura compreender o que ainda não pôde ser representado pelo paciente. A psicoterapia, portanto, não se resume aos cinquenta minutos visíveis. Há um trabalho de elaboração que continua sendo realizado, ainda que silenciosamente, entre uma sessão e outra.
Esse percurso também pode despertar vontade de desistir. Às vezes, o paciente sente que está piorando porque começou a perceber conflitos que antes permaneciam encobertos. Em outros momentos, acredita que a terapia não está funcionando porque os padrões continuam aparecendo. Entretanto, reconhecer a repetição já representa uma mudança importante. Antes, a pessoa vivia determinada situação como se estivesse acontecendo pela primeira vez. Depois, começa a perceber que existe um roteiro recorrente. Mais adiante, passa a reconhecer o movimento enquanto ele acontece. Somente então começa a construir uma resposta diferente. A transformação psíquica raramente ocorre como uma revelação súbita; ela costuma nascer de pequenas mudanças acumuladas.
Persistir na terapia não significa permanecer indefinidamente em qualquer tratamento, aceitar uma relação terapêutica inadequada ou suportar intervenções invasivas. O paciente pode e deve avaliar se existe confiança, competência técnica, respeito e possibilidade de trabalho conjunto. A persistência necessária é outra: trata-se de não abandonar automaticamente o processo toda vez que surgem frustração, vergonha, raiva ou vontade de fugir. Às vezes, falar sobre o desejo de interromper pode ser mais transformador do que simplesmente desaparecer.
Por isso, uma psicoterapia totalmente isenta de desconforto provavelmente produzirá mudanças limitadas. O tratamento não precisa ser brutal, punitivo ou emocionalmente desorganizador. Uma boa terapia respeita o ritmo do paciente e não força revelações para as quais ele ainda não possui recursos. Ao mesmo tempo, ela também não pode se reduzir a uma conversa que apenas confirma percepções já conhecidas e evita qualquer tensão. O cuidado terapêutico inclui acolher, mas também ajudar a pensar; respeitar defesas, mas compreender por que elas existem; oferecer apoio, mas sem retirar do paciente a possibilidade de participar ativamente da própria transformação.
O verdadeiro custo emocional da psicoterapia está na disposição para rever certezas, reconhecer ambivalências, tolerar frustrações e assumir responsabilidade pela maneira como se vive aquilo que aconteceu. Esse investimento pode ser doloroso, mas não precisa ser vivido como sofrimento estéril. Quando existe um vínculo terapêutico consistente, o desconforto deixa de ser apenas dor e se transforma em matéria de elaboração.
Talvez, então, a pergunta não seja se existe uma psicoterapia de baixo custo emocional, mas quanto cada pessoa consegue investir, naquele momento, em seu próprio processo de transformação. O trabalho terapêutico não exige heroísmo nem exposição ilimitada. Exige presença, curiosidade e uma disponibilidade gradual para conhecer partes de si que foram evitadas, protegidas ou esquecidas. É esse compromisso, construído ao longo do tempo, que torna possível viver com mais liberdade, compreender melhor os próprios vínculos e deixar de repetir, sem escolha, aquilo que antes parecia inevitável.
Referências
BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: ______. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras Completas, v. 10).
FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: ______. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras Completas, v. 10).
GUNDERSON, John G.; BERKOWITZ, Cynthia. Handbook of Good Psychiatric Management for Borderline Personality Disorder. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2014.
KERNBERG, Otto F. Transtornos graves da personalidade: estratégias psicoterapêuticas. Porto Alegre: Artmed, 1995.
MINERBO, Marion. Diálogos sobre a clínica psicanalítica. São Paulo: Blucher, 2020.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
Atualizado: 10 de jul.



