Laura Guerra – Psicóloga Clínica | CRP 01 8482
A transformação psíquica raramente acontece de maneira espetacular. Na maioria das vezes, ela começa discretamente, quando uma experiência que antes precisava ser descarregada, evitada ou repetida encontra, pela primeira vez, um espaço onde pode ser sustentada, compreendida e finalmente pensada. Talvez esse seja o trabalho mais silencioso da psicoterapia psicanalítica e, justamente por isso, um dos mais importantes.
Quando pensamos em uma sessão de psicoterapia, é bastante comum imaginarmos duas pessoas conversando: uma delas relata acontecimentos de sua vida, descreve conflitos, compartilha lembranças, dúvidas, medos e sofrimentos, enquanto a outra escuta atentamente, faz algumas intervenções e, ao final do encontro, ambas se despedem até a sessão seguinte. Embora essa descrição não esteja propriamente errada, ela está longe de traduzir aquilo que acontece em uma psicoterapia de orientação psicanalítica, cuja matéria-prima não se restringe às palavras pronunciadas durante o atendimento, mas inclui, sobretudo, a experiência emocional que vai sendo construída entre paciente e psicóloga ao longo do processo.
É justamente nessa experiência relacional que dois conceitos fundamentais da psicanálise passam a adquirir importância: a transferência e a contratransferência. Em linhas bastante gerais, chamamos de transferência o fenômeno pelo qual formas antigas de sentir, perceber e estabelecer vínculos reaparecem, de maneira inconsciente, na relação com a psicóloga. A paciente não revive apenas lembranças do passado; ela revive modos de funcionamento psíquico que passam a organizar, naquele momento, a própria relação terapêutica. A contratransferência, por sua vez, refere-se ao conjunto de experiências emocionais despertadas na psicóloga durante esse encontro. Hoje sabemos que essas emoções, quando cuidadosamente observadas, elaboradas e diferenciadas das vivências pessoais da própria profissional, constituem um dos instrumentos clínicos mais valiosos para compreender aquilo que a paciente ainda não consegue expressar diretamente.
Essa maneira de compreender a clínica representa uma mudança importante em relação à ideia de que a psicoterapia seria apenas um espaço destinado à interpretação de conteúdos inconscientes previamente organizados. Na verdade, muitas vezes o conflito psíquico não chega à sessão sob a forma de um relato coerente ou de uma lembrança claramente identificável. Ele se manifesta através da própria relação que vai sendo construída entre paciente e psicóloga, fazendo com que determinados sentimentos, expectativas, fantasias, medos e formas de se vincular passem a existir concretamente naquele espaço compartilhado. Em outras palavras, não se trata apenas de ouvir uma história sobre como alguém vive seus relacionamentos; trata-se de acompanhar, pouco a pouco, a maneira como essa forma de funcionamento passa a se expressar diante da própria psicóloga, tornando-se, assim, acessível ao pensamento.
Marion Minerbo (2020) propõe uma compreensão extremamente fértil desse fenômeno ao afirmar que a transferência não consiste simplesmente em deslocar sentimentos antigos para a figura da psicóloga. O que a paciente leva para a sessão é muito mais amplo do que isso. Ela leva sua maneira de organizar afetos, de construir vínculos, de experimentar frustrações, de lidar com perdas, de proteger-se da dor e de atribuir significados às relações humanas. Esse funcionamento psíquico deixa de existir apenas como narrativa e passa a adquirir presença dentro do próprio encontro terapêutico. Assim, enquanto a paciente fala sobre sua vida, ela também comunica, por diferentes vias, como sua mente funciona, ainda que não tenha consciência disso.
É justamente por essa razão que, em muitos momentos da psicoterapia psicanalítica, aquilo que acontece entre paciente e psicóloga torna-se tão importante quanto os acontecimentos relatados. A maneira como a paciente espera ser recebida, a facilidade ou dificuldade em confiar, o medo de ser criticada, a necessidade constante de agradar, a expectativa de abandono, a fantasia de decepcionar a psicóloga ou de ser incompreendida não surgem por acaso. Frequentemente, essas experiências emocionais representam formas de relacionamento construídas muito antes do início da psicoterapia e que continuam organizando sua vida afetiva sem que ela perceba claramente sua participação nesse processo.
Assim, uma paciente pode dedicar boa parte da sessão a relatar sucessivas experiências de decepção vividas ao longo da vida e, sem perceber, começar também a esperar que a própria psicóloga inevitavelmente a decepcione. Outra pode descrever sentimentos persistentes de rejeição e, pouco depois, interpretar um silêncio necessário da profissional como confirmação de que não está sendo suficientemente interessante ou importante. Há ainda aquelas pacientes que parecem extremamente preocupadas em corresponder às expectativas da psicóloga, esforçando-se continuamente para dizer aquilo que imaginam ser o correto, evitando discordâncias, escondendo determinadas emoções ou procurando demonstrar que estão “fazendo uma boa terapia”. Nenhuma dessas situações deve ser compreendida como simples equívocos de interpretação ou como distorções cognitivas a serem imediatamente corrigidas. Ao contrário, elas representam formas profundamente enraizadas de viver os vínculos e, justamente por isso, tornam-se uma fonte extremamente rica de compreensão clínica.
Em uma psicoterapia de orientação psicanalítica, portanto, a tarefa da psicóloga não consiste em oferecer esclarecimentos rápidos sobre a origem desses movimentos emocionais, nem em desfazer imediatamente as interpretações que a paciente constroi. Antes disso, torna-se necessário acompanhar cuidadosamente o desenvolvimento dessa experiência relacional, procurando compreender como ela se organiza, quais conflitos expressa, quais angústias procura evitar e quais aspectos da vida psíquica estão sendo comunicados através dela. Frequentemente, essa compreensão exige tempo, paciência e, sobretudo, disponibilidade para permanecer em contato com estados emocionais que ainda não possuem uma forma suficientemente organizada para serem compreendidos de maneira imediata.
O trabalho da psicóloga, entretanto, não consiste em confirmar ou corrigir imediatamente essas percepções. Antes de qualquer interpretação, existe uma tarefa muito mais delicada, que é permanecer emocionalmente disponível para experimentar algo daquilo que a paciente está vivendo, sem responder impulsivamente a essa experiência e sem se deixar capturar completamente por ela.
É justamente nesse ponto que a contratransferência passa a ocupar um lugar importante. Durante muito tempo ela foi compreendida apenas como um conjunto de reações pessoais da analista que deveriam ser controladas para não interferirem no tratamento. A partir dos trabalhos de Paula Heimann (1950), Heinrich Racker (1968) e, posteriormente, de diversos autores da psicanálise contemporânea, essa compreensão foi sendo ampliada. Hoje entendemos que, quando cuidadosamente analisadas, algumas emoções despertadas na psicóloga podem oferecer pistas importantes sobre a experiência emocional da própria paciente.
Isso não significa, evidentemente, que tudo aquilo que a psicóloga sente pertença à paciente. A profissional continua sendo uma pessoa, com sua própria história, seus afetos e seus conflitos, razão pela qual a análise pessoal, a supervisão clínica e o estudo permanente permanecem indispensáveis ao exercício ético da profissão. Ainda assim, determinadas experiências emocionais que surgem durante o atendimento merecem ser cuidadosamente pensadas, porque podem estar relacionadas àquilo que está acontecendo naquele encontro específico.
Às vezes, a psicóloga percebe um sentimento inesperado de impotência. Em outras ocasiões, pode experimentar uma estranha sensação de vazio, uma urgência em resolver rapidamente o sofrimento apresentado, um desejo intenso de proteger a paciente ou até mesmo uma dificuldade incomum para pensar durante a sessão. Nenhuma dessas experiências é tomada como uma resposta pronta sobre o funcionamento psíquico da paciente. Elas constituem apenas elementos de um processo muito maior de elaboração, que continuará acontecendo mesmo depois que a sessão termina.
Foi Wilfred Bion (1991) quem descreveu, de maneira particularmente sensível, parte desse trabalho silencioso. Ao desenvolver os conceitos de reverie e de função continente, ele propôs que, em determinados momentos, a paciente comunica experiências emocionais que ainda não puderam ser organizadas em pensamentos. Não porque lhe falte inteligência ou capacidade de reflexão, mas porque certas vivências surgiram em momentos muito precoces do desenvolvimento psíquico, quando ainda não havia recursos internos suficientes para compreendê-las.
Nessas situações, a psicóloga oferece, temporariamente, aquilo que Bion chamou de função continente. Ela procura receber essas experiências emocionais, suportá-las internamente sem expulsá-las nem organizá-las de forma precipitada e, pouco a pouco, encontrar ligações, significados e possibilidades de compreensão que possam ser compartilhados com a paciente. Não se trata de pensar pela paciente, muito menos de oferecer respostas para sua vida. Trata-se de emprestar, por algum tempo, a própria capacidade de pensar aquilo que ainda não pôde ser pensado, até que essa função possa ser progressivamente apropriada pela própria paciente.
É justamente por isso que o trabalho da psicóloga não termina quando a paciente deixa o consultório. Muitas vezes, fragmentos daquela experiência permanecem vivos ao longo do dia, enquanto a profissional realiza outras atividades, atende outras pessoas ou segue sua rotina. Algumas compreensões surgem apenas horas depois; outras exigem vários encontros antes que possam ser formuladas com clareza. Diferentemente da imagem de alguém que precisa encontrar rapidamente uma explicação para tudo, a clínica psicanalítica exige a capacidade de conviver, por algum tempo, com aquilo que ainda não faz sentido.
Bion (1991) chamou essa postura de capacidade negativa: a disposição para tolerar a dúvida, a incerteza e o não saber sem ceder à tentação de produzir explicações apressadas apenas para aliviar a própria ansiedade. Paradoxalmente, é justamente essa disponibilidade para permanecer algum tempo sem respostas que permite que compreensões verdadeiramente transformadoras possam surgir. Elas não aparecem como soluções prontas, mas como construções que vão sendo elaboradas lentamente dentro da relação terapêutica.
Talvez seja justamente essa uma das partes menos conhecidas da psicoterapia psicanalítica. Quem observa uma sessão de fora pode ter a impressão de que tudo acontece apenas durante a conversa, como se o trabalho da psicóloga se resumisse a ouvir atentamente, formular algumas interpretações e encerrar o encontro. Entretanto, aquilo que se passa na relação terapêutica costuma ser muito mais complexo, porque envolve um trabalho interno que não é imediatamente visível nem para a paciente, nem para a própria profissional.
Em muitos momentos, a paciente chega trazendo emoções intensas, contraditórias ou pouco organizadas, que ainda não encontraram uma forma de serem simbolizadas. Ela consegue falar sobre acontecimentos, mas nem sempre consegue pensar sobre aquilo que sente. É como se determinadas experiências emocionais ainda existissem apenas como sensações difusas, estados de angústia, impulsos ou repetições que insistem em retornar sem que sua origem seja claramente compreendida. Nesses momentos, o trabalho da psicóloga consiste menos em oferecer explicações e muito mais em sustentar um espaço no qual essas experiências possam, pouco a pouco, adquirir significado.
Esse é um processo que exige tempo. Algumas compreensões aparecem durante a própria sessão; outras vão se formando lentamente, à medida que diferentes encontros permitem estabelecer novas ligações entre fatos, emoções, fantasias e modos de se relacionar. Frequentemente, aquilo que parecia um episódio isolado revela, semanas depois, fazer parte de uma organização psíquica muito mais ampla. Da mesma forma, uma emoção despertada na psicóloga durante um atendimento pode adquirir um novo sentido somente depois que outros elementos da história da paciente começam a se conectar.
Por essa razão, a psicoterapia psicanalítica dificilmente trabalha com respostas rápidas ou interpretações produzidas para preencher imediatamente aquilo que ainda não foi compreendido. Ao contrário, existe um compromisso permanente com o próprio processo de pensar. Antes de formular uma compreensão, a psicóloga procura permitir que a experiência emocional amadureça internamente, respeitando o tempo necessário para que aquilo que inicialmente se apresentava apenas como sofrimento possa transformar-se em algo que faça sentido para ambas.
Esse modo de trabalhar exige uma postura clínica bastante particular. Não basta conhecer teorias, dominar conceitos ou reconhecer estruturas psicopatológicas. É preciso desenvolver a capacidade de permanecer diante da complexidade da experiência humana sem reduzi-la prematuramente a explicações simplificadas. Em muitos casos, compreender uma paciente significa acompanhar, durante bastante tempo, um processo que ainda está em construção, aceitando que algumas respostas só aparecerão quando a própria relação terapêutica produzir condições para isso.
Talvez seja exatamente nesse ponto que resida uma das maiores diferenças da psicoterapia de orientação psicanalítica. Seu objetivo não é apenas aliviar sintomas ou modificar comportamentos, embora essas mudanças frequentemente aconteçam ao longo do tratamento. Seu propósito mais profundo consiste em ampliar a capacidade da paciente de conhecer sua própria vida emocional, reconhecer os sentidos de suas experiências e construir formas mais livres de viver seus vínculos consigo mesma e com as outras pessoas.
Por isso, quando uma sessão parece ter sido “apenas uma conversa”, é possível que um trabalho muito mais amplo esteja acontecendo silenciosamente. Um trabalho que não se mede pela quantidade de interpretações realizadas, nem pela rapidez das respostas encontradas, mas pela possibilidade de transformar experiências que antes eram apenas repetidas em experiências que passam a ser pensadas. É desse trabalho invisível, paciente e compartilhado que, muitas vezes, nasce uma mudança verdadeiramente duradoura, não porque alguém ensinou à paciente uma nova maneira de viver, mas porque ela própria pôde começar a atribuir novos sentidos à sua história, às suas relações e, sobretudo, àquilo que sente.
Referências
BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BION, Wilfred R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
HEIMANN, Paula. Sobre a contratransferência. In: SPILLIUS, Elizabeth Bott (Org.). Melanie Klein Hoje. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
MINERBO, Marion. Transferência e contratransferência. São Paulo: Blucher, 2020.
RACKER, Heinrich. Estudos sobre técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.



