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	<title>Laura Guerra</title>
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		<title>O trabalho invisível da psicoterapia psicanalítica: muito além da conversa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[contato@psicologalauraguerra.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 13:42:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapias]]></category>
		<category><![CDATA[#borderline]]></category>
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					<description><![CDATA[psicoterapia de orientação psicanalítica vai muito além da conversa que acontece durante uma sessão. Enquanto a paciente relata sua história, sua maneira de sentir, pensar e se relacionar também passa a se manifestar na relação com a psicóloga, por meio da transferência. Ao mesmo tempo, as emoções despertadas na profissional — quando cuidadosamente elaboradas — tornam-se um importante instrumento para compreender experiências que ainda não puderam ser simbolizadas. Inspirado nas contribuições de Marion Minerbo, Wilfred Bion, Paula Heimann e Heinrich Racker, este artigo apresenta o trabalho invisível que sustenta a clínica psicanalítica e mostra por que muitas das transformações emocionais começam silenciosamente, muito antes de se tornarem conscientes.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Laura Guerra &#8211; Psicóloga Clínica | CRP 01 8482</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-color has-link-color wp-elements-83e65d50d1aad5fececccfe9fc95afef" style="color:#b6963e">A transformação psíquica raramente acontece de maneira espetacular. Na maioria das vezes, ela começa discretamente, quando uma experiência que antes precisava ser descarregada, evitada ou repetida encontra, pela primeira vez, um espaço onde pode ser sustentada, compreendida e finalmente pensada. Talvez esse seja o trabalho mais silencioso da psicoterapia psicanalítica e, justamente por isso, um dos mais importantes.&nbsp;&nbsp;</h4>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pensamos em uma sessão de psicoterapia, é bastante comum imaginarmos duas pessoas conversando: uma delas relata acontecimentos de sua vida, descreve conflitos, compartilha lembranças, dúvidas, medos e sofrimentos, enquanto a outra escuta atentamente, faz algumas intervenções e, ao final do encontro, ambas se despedem até a sessão seguinte. Embora essa descrição não esteja propriamente errada, ela está longe de traduzir aquilo que acontece em uma psicoterapia de orientação psicanalítica, cuja matéria-prima não se restringe às palavras pronunciadas durante o atendimento, mas inclui, sobretudo, a experiência emocional que vai sendo construída entre paciente e psicóloga ao longo do processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente nessa experiência relacional que dois conceitos fundamentais da psicanálise passam a adquirir importância: a transferência e a contratransferência. Em linhas bastante gerais, chamamos de transferência o fenômeno pelo qual formas antigas de sentir, perceber e estabelecer vínculos reaparecem, de maneira inconsciente, na relação com a psicóloga. A paciente não revive apenas lembranças do passado; ela revive modos de funcionamento psíquico que passam a organizar, naquele momento, a própria relação terapêutica. A contratransferência, por sua vez, refere-se ao conjunto de experiências emocionais despertadas na psicóloga durante esse encontro. Hoje sabemos que essas emoções, quando cuidadosamente observadas, elaboradas e diferenciadas das vivências pessoais da própria profissional, constituem um dos instrumentos clínicos mais valiosos para compreender aquilo que a paciente ainda não consegue expressar diretamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa maneira de compreender a clínica representa uma mudança importante em relação à ideia de que a psicoterapia seria apenas um espaço destinado à interpretação de conteúdos inconscientes previamente organizados. Na verdade, muitas vezes o conflito psíquico não chega à sessão sob a forma de um relato coerente ou de uma lembrança claramente identificável. Ele se manifesta através da própria relação que vai sendo construída entre paciente e psicóloga, fazendo com que determinados sentimentos, expectativas, fantasias, medos e formas de se vincular passem a existir concretamente naquele espaço compartilhado. Em outras palavras, não se trata apenas de ouvir uma história sobre como alguém vive seus relacionamentos; trata-se de acompanhar, pouco a pouco, a maneira como essa forma de funcionamento passa a se expressar diante da própria psicóloga, tornando-se, assim, acessível ao pensamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marion Minerbo (2020) propõe uma compreensão extremamente fértil desse fenômeno ao afirmar que a transferência não consiste simplesmente em deslocar sentimentos antigos para a figura da psicóloga. O que a paciente leva para a sessão é muito mais amplo do que isso. Ela leva sua maneira de organizar afetos, de construir vínculos, de experimentar frustrações, de lidar com perdas, de proteger-se da dor e de atribuir significados às relações humanas. Esse funcionamento psíquico deixa de existir apenas como narrativa e passa a adquirir presença dentro do próprio encontro terapêutico. Assim, enquanto a paciente fala sobre sua vida, ela também comunica, por diferentes vias, como sua mente funciona, ainda que não tenha consciência disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente por essa razão que, em muitos momentos da psicoterapia psicanalítica, aquilo que acontece entre paciente e psicóloga torna-se tão importante quanto os acontecimentos relatados. A maneira como a paciente espera ser recebida, a facilidade ou dificuldade em confiar, o medo de ser criticada, a necessidade constante de agradar, a expectativa de abandono, a fantasia de decepcionar a psicóloga ou de ser incompreendida não surgem por acaso. Frequentemente, essas experiências emocionais representam formas de relacionamento construídas muito antes do início da psicoterapia e que continuam organizando sua vida afetiva sem que ela perceba claramente sua participação nesse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, uma paciente pode dedicar boa parte da sessão a relatar sucessivas experiências de decepção vividas ao longo da vida e, sem perceber, começar também a esperar que a própria psicóloga inevitavelmente a decepcione. Outra pode descrever sentimentos persistentes de rejeição e, pouco depois, interpretar um silêncio necessário da profissional como confirmação de que não está sendo suficientemente interessante ou importante. Há ainda aquelas pacientes que parecem extremamente preocupadas em corresponder às expectativas da psicóloga, esforçando-se continuamente para dizer aquilo que imaginam ser o correto, evitando discordâncias, escondendo determinadas emoções ou procurando demonstrar que estão &#8220;fazendo uma boa terapia&#8221;. Nenhuma dessas situações deve ser compreendida como simples equívocos de interpretação ou como distorções cognitivas a serem imediatamente corrigidas. Ao contrário, elas representam formas profundamente enraizadas de viver os vínculos e, justamente por isso, tornam-se uma fonte extremamente rica de compreensão clínica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma psicoterapia de orientação psicanalítica, portanto, a tarefa da psicóloga não consiste em oferecer esclarecimentos rápidos sobre a origem desses movimentos emocionais, nem em desfazer imediatamente as interpretações que a paciente constroi. Antes disso, torna-se necessário acompanhar cuidadosamente o desenvolvimento dessa experiência relacional, procurando compreender como ela se organiza, quais conflitos expressa, quais angústias procura evitar e quais aspectos da vida psíquica estão sendo comunicados através dela. Frequentemente, essa compreensão exige tempo, paciência e, sobretudo, disponibilidade para permanecer em contato com estados emocionais que ainda não possuem uma forma suficientemente organizada para serem compreendidos de maneira imediata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho da psicóloga, entretanto, não consiste em confirmar ou corrigir imediatamente essas percepções. Antes de qualquer interpretação, existe uma tarefa muito mais delicada, que é permanecer emocionalmente disponível para experimentar algo daquilo que a paciente está vivendo, sem responder impulsivamente a essa experiência e sem se deixar capturar completamente por ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente nesse ponto que a contratransferência passa a ocupar um lugar importante. Durante muito tempo ela foi compreendida apenas como um conjunto de reações pessoais da analista que deveriam ser controladas para não interferirem no tratamento. A partir dos trabalhos de Paula Heimann (1950), Heinrich Racker (1968) e, posteriormente, de diversos autores da psicanálise contemporânea, essa compreensão foi sendo ampliada. Hoje entendemos que, quando cuidadosamente analisadas, algumas emoções despertadas na psicóloga podem oferecer pistas importantes sobre a experiência emocional da própria paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa, evidentemente, que tudo aquilo que a psicóloga sente pertença à paciente. A profissional continua sendo uma pessoa, com sua própria história, seus afetos e seus conflitos, razão pela qual a análise pessoal, a supervisão clínica e o estudo permanente permanecem indispensáveis ao exercício ético da profissão. Ainda assim, determinadas experiências emocionais que surgem durante o atendimento merecem ser cuidadosamente pensadas, porque podem estar relacionadas àquilo que está acontecendo naquele encontro específico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, a psicóloga percebe um sentimento inesperado de impotência. Em outras ocasiões, pode experimentar uma estranha sensação de vazio, uma urgência em resolver rapidamente o sofrimento apresentado, um desejo intenso de proteger a paciente ou até mesmo uma dificuldade incomum para pensar durante a sessão. Nenhuma dessas experiências é tomada como uma resposta pronta sobre o funcionamento psíquico da paciente. Elas constituem apenas elementos de um processo muito maior de elaboração, que continuará acontecendo mesmo depois que a sessão termina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi Wilfred Bion (1991) quem descreveu, de maneira particularmente sensível, parte desse trabalho silencioso. Ao desenvolver os conceitos de <em>reverie</em> e de função continente, ele propôs que, em determinados momentos, a paciente comunica experiências emocionais que ainda não puderam ser organizadas em pensamentos. Não porque lhe falte inteligência ou capacidade de reflexão, mas porque certas vivências surgiram em momentos muito precoces do desenvolvimento psíquico, quando ainda não havia recursos internos suficientes para compreendê-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessas situações, a psicóloga oferece, temporariamente, aquilo que Bion chamou de função continente. Ela procura receber essas experiências emocionais, suportá-las internamente sem expulsá-las nem organizá-las de forma precipitada e, pouco a pouco, encontrar ligações, significados e possibilidades de compreensão que possam ser compartilhados com a paciente. Não se trata de pensar pela paciente, muito menos de oferecer respostas para sua vida. Trata-se de emprestar, por algum tempo, a própria capacidade de pensar aquilo que ainda não pôde ser pensado, até que essa função possa ser progressivamente apropriada pela própria paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente por isso que o trabalho da psicóloga não termina quando a paciente deixa o consultório. Muitas vezes, fragmentos daquela experiência permanecem vivos ao longo do dia, enquanto a profissional realiza outras atividades, atende outras pessoas ou segue sua rotina. Algumas compreensões surgem apenas horas depois; outras exigem vários encontros antes que possam ser formuladas com clareza. Diferentemente da imagem de alguém que precisa encontrar rapidamente uma explicação para tudo, a clínica psicanalítica exige a capacidade de conviver, por algum tempo, com aquilo que ainda não faz sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bion (1991) chamou essa postura de <strong>capacidade negativa</strong>: a disposição para tolerar a dúvida, a incerteza e o não saber sem ceder à tentação de produzir explicações apressadas apenas para aliviar a própria ansiedade. Paradoxalmente, é justamente essa disponibilidade para permanecer algum tempo sem respostas que permite que compreensões verdadeiramente transformadoras possam surgir. Elas não aparecem como soluções prontas, mas como construções que vão sendo elaboradas lentamente dentro da relação terapêutica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja justamente essa uma das partes menos conhecidas da psicoterapia psicanalítica. Quem observa uma sessão de fora pode ter a impressão de que tudo acontece apenas durante a conversa, como se o trabalho da psicóloga se resumisse a ouvir atentamente, formular algumas interpretações e encerrar o encontro. Entretanto, aquilo que se passa na relação terapêutica costuma ser muito mais complexo, porque envolve um trabalho interno que não é imediatamente visível nem para a paciente, nem para a própria profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos momentos, a paciente chega trazendo emoções intensas, contraditórias ou pouco organizadas, que ainda não encontraram uma forma de serem simbolizadas. Ela consegue falar sobre acontecimentos, mas nem sempre consegue pensar sobre aquilo que sente. É como se determinadas experiências emocionais ainda existissem apenas como sensações difusas, estados de angústia, impulsos ou repetições que insistem em retornar sem que sua origem seja claramente compreendida. Nesses momentos, o trabalho da psicóloga consiste menos em oferecer explicações e muito mais em sustentar um espaço no qual essas experiências possam, pouco a pouco, adquirir significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é um processo que exige tempo. Algumas compreensões aparecem durante a própria sessão; outras vão se formando lentamente, à medida que diferentes encontros permitem estabelecer novas ligações entre fatos, emoções, fantasias e modos de se relacionar. Frequentemente, aquilo que parecia um episódio isolado revela, semanas depois, fazer parte de uma organização psíquica muito mais ampla. Da mesma forma, uma emoção despertada na psicóloga durante um atendimento pode adquirir um novo sentido somente depois que outros elementos da história da paciente começam a se conectar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por essa razão, a psicoterapia psicanalítica dificilmente trabalha com respostas rápidas ou interpretações produzidas para preencher imediatamente aquilo que ainda não foi compreendido. Ao contrário, existe um compromisso permanente com o próprio processo de pensar. Antes de formular uma compreensão, a psicóloga procura permitir que a experiência emocional amadureça internamente, respeitando o tempo necessário para que aquilo que inicialmente se apresentava apenas como sofrimento possa transformar-se em algo que faça sentido para ambas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse modo de trabalhar exige uma postura clínica bastante particular. Não basta conhecer teorias, dominar conceitos ou reconhecer estruturas psicopatológicas. É preciso desenvolver a capacidade de permanecer diante da complexidade da experiência humana sem reduzi-la prematuramente a explicações simplificadas. Em muitos casos, compreender uma paciente significa acompanhar, durante bastante tempo, um processo que ainda está em construção, aceitando que algumas respostas só aparecerão quando a própria relação terapêutica produzir condições para isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja exatamente nesse ponto que resida uma das maiores diferenças da psicoterapia de orientação psicanalítica. Seu objetivo não é apenas aliviar sintomas ou modificar comportamentos, embora essas mudanças frequentemente aconteçam ao longo do tratamento. Seu propósito mais profundo consiste em ampliar a capacidade da paciente de conhecer sua própria vida emocional, reconhecer os sentidos de suas experiências e construir formas mais livres de viver seus vínculos consigo mesma e com as outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, quando uma sessão parece ter sido &#8220;apenas uma conversa&#8221;, é possível que um trabalho muito mais amplo esteja acontecendo silenciosamente. Um trabalho que não se mede pela quantidade de interpretações realizadas, nem pela rapidez das respostas encontradas, mas pela possibilidade de transformar experiências que antes eram apenas repetidas em experiências que passam a ser pensadas. É desse trabalho invisível, paciente e compartilhado que, muitas vezes, nasce uma mudança verdadeiramente duradoura, não porque alguém ensinou à paciente uma nova maneira de viver, mas porque ela própria pôde começar a atribuir novos sentidos à sua história, às suas relações e, sobretudo, àquilo que sente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">BION, Wilfred R. <em>Aprendendo com a experiência</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BION, Wilfred R. <em>Atenção e interpretação</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HEIMANN, Paula. Sobre a contratransferência. In: SPILLIUS, Elizabeth Bott (Org.). <em>Melanie Klein Hoje</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MINERBO, Marion. <em>Transferência e contratransferência</em>. São Paulo: Blucher, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RACKER, Heinrich. <em>Estudos sobre técnica psicanalítica</em>. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.</p>
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		<title>Automutilação no Transtorno de Personalidade Borderline: quando sentir demais transborda no corpo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[contato@psicologalauraguerra.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 19:08:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapias]]></category>
		<category><![CDATA[#raiva#saudemental#tratamentoparaborderline#manejocriseborderline#borderline#controleemocional#borderline #controleemocional borderline controle emocional]]></category>
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					<description><![CDATA[Momentos de felicidade, sucesso ou realização também podem desencadear crises emocionais intensas. Neste artigo, você entenderá por que isso acontece, como a psicanálise compreende esse fenômeno e qual a relação entre simbolização, automutilação e o funcionamento borderline.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading has-text-color has-link-color wp-elements-72c22e1efeeb805fd57bbd2359c665e4" style="color:#c3a248">Existe uma tendência bastante difundida de associar a automutilação, os comportamentos impulsivos e outras formas de atuação autodestrutiva exclusivamente às experiências de sofrimento, abandono, rejeição ou perda. Essa associação não está errada, mas é insuficiente. A clínica mostra, repetidamente, que algumas das crises mais intensas podem surgir justamente em momentos que, à primeira vista, deveriam produzir satisfação, realização ou felicidade. Não é incomum que uma pessoa relate ter se sentido profundamente desorganizada depois de receber uma promoção, ser aprovada em um concurso, iniciar um relacionamento amoroso importante ou alcançar um objetivo pelo qual lutou durante anos. Nessas circunstâncias, o sofrimento costuma vir acompanhado de perplexidade, pois a própria pessoa não compreende por que uma experiência tão desejada desencadeou uma angústia tão intensa.</h4>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade de compreender esse fenômeno decorre, em grande parte, de uma concepção simplificada da vida emocional. Costumamos pensar as emoções a partir de categorias opostas — boas ou ruins, agradáveis ou desagradáveis — como se a intensidade da experiência dependesse exclusivamente de sua qualidade afetiva. No entanto, quando observamos mais atentamente o funcionamento psíquico, percebemos que a situação é muito mais complexa. Uma experiência de felicidade raramente mobiliza apenas felicidade. Quando alguém recebe uma notícia pela qual esperou durante anos, dificilmente experimenta apenas alegria. A conquista costuma trazer consigo algo mais complexo. O reconhecimento pode vir acompanhado da sensação de estar excessivamente exposto. O sucesso pode convocar antigas experiências de desamparo. Em alguns casos, a felicidade desperta um temor difuso de que tudo aquilo seja perdido tão rapidamente quanto foi conquistado. Embora a consciência registre principalmente a satisfação do momento, uma série de movimentos psíquicos paralelos entra em funcionamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente nesse ponto que a experiência clínica começa a dialogar de forma fecunda com a teoria psicanalítica. Melanie Klein (1991), ao estudar a constituição do mundo interno, demonstrou que amor, gratidão, inveja, culpa, medo de perda e impulsos destrutivos frequentemente coexistem na mesma experiência emocional. A mente humana não funciona por compartimentos estanques. Aquilo que conscientemente é vivido como felicidade pode mobilizar simultaneamente fantasias inconscientes ligadas à dependência, à vulnerabilidade, à rivalidade, ao medo da perda ou à expectativa de uma futura decepção. Em outras palavras, uma emoção nunca chega sozinha. Ela traz consigo uma constelação de experiências afetivas que se articulam entre si de maneira complexa e nem sempre acessível à consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa observação torna-se particularmente relevante quando pensamos no funcionamento borderline. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o sofrimento dessas pessoas não decorre de uma incapacidade de sentir. Frequentemente encontramos exatamente o oposto. Trata-se de pessoas profundamente sensíveis, capazes de experimentar os afetos com enorme intensidade. A dificuldade surge quando a quantidade de excitação emocional mobilizada por uma experiência ultrapassa a capacidade disponível para transformá-la em algo pensável. A emoção existe, é sentida com força e produz efeitos concretos, mas ainda não encontrou uma forma psíquica capaz de lhe oferecer contorno, significado e representação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa distinção entre sentir e pensar uma emoção é fundamental. Sentir não garante que a experiência tenha sido simbolizada. Muitas vezes a pessoa percebe claramente que algo muito importante está acontecendo dentro dela, mas não consegue compreender exatamente o que está sentindo. Sabe que está tomada por uma experiência intensa, porém encontra enorme dificuldade para descrevê-la, organizá-la ou relacioná-la com sua história. A emoção permanece presente, mas aparece sob a forma de tensão, inquietação, urgência ou sensação de transbordamento. Há momentos em que o sofrimento não se apresenta como tristeza nem como medo. Ele surge como excesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi justamente sobre esse ponto que Wilfred Bion desenvolveu uma de suas contribuições mais importantes para a psicanálise. Ao formular sua teoria da função alfa, Bion (1991) propôs que as experiências emocionais precisam passar por um trabalho de transformação para que possam adquirir significado psíquico. Uma emoção não se converte automaticamente em pensamento. Entre sentir e pensar existe um processo de metabolização emocional que permite à experiência tornar-se representável. Quando esse trabalho ocorre de maneira satisfatória, a emoção pode ser sonhada, lembrada, simbolizada e integrada à história da pessoa. Entretanto, quando a intensidade da experiência excede a capacidade disponível para realizar essa transformação, o afeto permanece em estado bruto, produzindo justamente a sensação de inundação frequentemente descrita por pacientes borderline.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez por isso muitos deles relatem uma experiência difícil de traduzir em palavras. Não falam necessariamente de tristeza. Falam de algo que tomou conta de todo o espaço interno. Descrevem uma sensação de sufocamento emocional, de urgência, de inquietação crescente ou de uma necessidade imperiosa de fazer alguma coisa para interromper o estado em que se encontram. O sofrimento aparece menos como um conteúdo emocional específico e mais como uma impossibilidade de continuar sustentando a intensidade daquilo que está sendo vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando observamos esse fenômeno mais de perto, torna-se evidente que o corpo ocupa um lugar central nessa dinâmica. Isso não ocorre porque o corpo seja o problema, mas porque ele frequentemente se transforma na via de expressão disponível quando a experiência emocional ainda não encontrou representação suficiente. Aquilo que não pôde ser pensado continua exigindo trabalho psíquico. Aquilo que não encontrou palavras continua buscando uma forma de ser expresso. A experiência emocional não desaparece simplesmente porque não conseguiu ser simbolizada. Ela permanece ativa e procura outros caminhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">André Green (1988), ao investigar os chamados estados-limite, observou que determinadas experiências emocionais podem permanecer desligadas das representações que lhes confeririam sentido. Nesses momentos, o afeto deixa de circular pelos caminhos habituais da elaboração psíquica e passa a buscar formas alternativas de expressão. O ato emerge precisamente onde o pensamento encontra seus limites. <a href="https://www.psicologalauraguerra.com.br/post/o-transtorno-de-personalidade-borderline-e-a-possibilidade-de-tratamento/">Essa formulação ajuda a compreender por que comportamentos impulsivos, rupturas abruptas de vínculos, episódios de automutilação e outras formas de atuação não podem ser reduzidos a manifestações de destrutividade. Em muitos casos, eles representam tentativas desesperadas de lidar com experiências emocionais que se tornaram excessivas e que ainda não encontraram um lugar dentro da mente.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">A automutilação talvez seja um dos exemplos mais contundentes desse processo. Quando escutamos atentamente o relato de muitas pessoas que se cortam, percebemos que o objetivo principal do ato raramente é a dor física em si. O que frequentemente aparece é a busca por alívio, por contenção ou por uma sensação de organização interna. Essa afirmação pode causar desconforto, sobretudo porque somos levados a associar qualquer forma de agressão ao próprio corpo a uma intenção exclusivamente autodestrutiva. No entanto, a experiência clínica sugere algo mais complexo. O corte produz uma transformação importante na economia psíquica da pessoa. Aquilo que era vivido como um sofrimento difuso, ilimitado e impossível de localizar passa a adquirir contornos concretos. O excesso emocional encontra uma fronteira. A tensão passa a ter um lugar. O corpo oferece uma delimitação para uma experiência que, até então, parecia espalhada por toda a vida psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica ajuda a compreender por que determinadas pessoas entram em crise justamente quando estão vivendo momentos significativos de suas vidas. O problema não está na felicidade, no amor, no sucesso ou na realização. O problema surge quando a intensidade emocional mobilizada por essas experiências excede a capacidade de simbolização disponível naquele momento. Uma relação amorosa pode despertar alegria e esperança, mas também vulnerabilidade, medo da perda e fantasias de abandono. Uma conquista profissional pode trazer satisfação, mas também sentimentos de exposição, rivalidade ou expectativa. Quanto mais importante é a experiência, maior tende a ser a quantidade de afetos mobilizados por ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Winnicott (1975), ao discutir a constituição do espaço potencial, ofereceu uma perspectiva particularmente útil para compreender esse fenômeno. Para ele, a capacidade de brincar, imaginar, criar e simbolizar depende da existência de uma área intermediária da experiência onde os acontecimentos emocionais possam ser gradualmente transformados em representações. Quando essa área apresenta fragilidades importantes, determinadas vivências tendem a permanecer excessivamente concretas. Em vez de serem experimentadas como pensamentos, imagens ou narrativas internas, elas continuam sendo vividas como sensações corporais, impulsos ou estados de excitação difíceis de elaborar. Nesses casos, aquilo que não encontrou lugar na linguagem continua procurando expressão através do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por essa razão que o trabalho analítico não busca reduzir a intensidade emocional das pessoas. A riqueza da vida psíquica depende justamente da capacidade de sentir profundamente. O que se procura construir, ao longo do processo terapêutico, é uma ampliação progressiva da capacidade de simbolização. À medida que a pessoa desenvolve recursos para reconhecer, nomear e representar suas experiências internas, aquilo que antes aparecia apenas como urgência corporal começa a adquirir significado. A emoção deixa de ser vivida exclusivamente como excesso e passa a integrar uma narrativa sobre si mesma. O sofrimento ganha história. Os afetos tornam-se mais compreensíveis. E aquilo que antes precisava ser descarregado através do corpo passa, gradualmente, a encontrar espaço na linguagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez uma das tarefas mais delicadas da clínica com pacientes borderline consista justamente em acompanhar essa passagem do ato para a representação. Não porque os comportamentos impulsivos desapareçam de imediato, mas porque, aos poucos, a pessoa passa a descobrir que por trás de muitos deles existe uma experiência emocional que nunca encontrou palavras suficientes para ser pensada. Quando essas palavras começam a surgir, algo fundamental se transforma. O corpo deixa de carregar sozinho a tarefa de expressar aquilo que a mente ainda não conseguia dizer. E a emoção, que antes aparecia apenas como uma força avassaladora, torna-se uma experiência humana passível de ser compreendida, compartilhada e elaborada.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BION, Wilfred R. <em>Aprendendo com a experiência</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GREEN, André. <em>Narcisismo de vida, narcisismo de morte</em>. São Paulo: Escuta, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KLEIN, Melanie. <em>Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963)</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MINERBO, Marion. <em>Neurose e não-neurose</em>. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WINNICOTT, Donald W. <em>O brincar e a realidade</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1975.</p>
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		<title>O que é Transtorno de Personalidade Borderline? Sintomas, causas e tratamento.</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 17:16:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é um transtorno complexo que afeta a regulação emocional, os relacionamentos e a identidade. Neste artigo, você compreenderá suas principais características, causas, formas de tratamento e como abordagens psicanalíticas, como a TFP e a MBT, podem contribuir para mudanças duradouras.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-style:normal;font-weight:100">Laura Guerra &#8211; Psicóloga Clínica &#8211; CRP 01 8482</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-color has-link-color wp-elements-f64641527ef4a12caaa3dad89d612c46" style="color:#a68937">O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica caracterizada por instabilidade emocional intensa, relacionamentos interpessoais tumultuados e comportamentos impulsivos. Pessoas com TPB costumam apresentar mudanças rápidas de humor, sentimentos crônicos de vazio, medo intenso de abandono e episódios de raiva desproporcional. Esses sintomas podem levar a dificuldades significativas no funcionamento social e ocupacional, além de aumentar o risco de comportamentos autodestrutivos e tentativas de suicídio (<a href="https://www.psychiatry.org/" target="_blank" rel="noopener">AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION</a>, 2014; LIEB et al., 2004). Neste artigo, você compreenderá suas principais características, causas, formas de tratamento e como abordagens psicanalíticas, como a TFP e a MBT, podem contribuir para mudanças duradouras.</h4>



<h3 class="wp-block-heading">Neste artigo você encontrará</h3>



<ul class="wp-block-list">
<li>O que é o Transtorno de Personalidade Borderline</li>



<li>Quais são os sintomas</li>



<li>Como é feito o diagnóstico</li>



<li>Quais são as causas</li>



<li>O que acontece no cérebro</li>



<li>Como funciona o tratamento</li>



<li>Psicoterapia Psicanalítica</li>



<li>TFP</li>



<li>MBT</li>



<li>GPM</li>
</ul>



<h4 class="wp-block-heading">O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), conhecido simplesmente como <strong>Borderline</strong>, é muito mais do que mudanças intensas de humor. Quem convive com esse transtorno costuma enfrentar uma instabilidade emocional persistente, medo intenso de abandono, dificuldade para manter relacionamentos e um sofrimento que interfere profundamente na vida cotidiana.</h4>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, o Borderline foi cercado por estigmas e interpretações equivocadas. Hoje, entretanto, as pesquisas mostram que se trata de uma condição complexa, resultado da interação entre fatores biológicos, experiências de vida e formas particulares de funcionamento psíquico. Também sabemos que existem tratamentos eficazes capazes de promover mudanças importantes e duradouras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo, você encontrará uma visão ampla sobre o Transtorno de Personalidade Borderline, suas causas, sintomas, diagnóstico e tratamento, além de compreender como abordagens psicanalíticas, como a <strong><a href="https://www.psicologalauraguerra.com.br/post/o-trabalho-invisivel-da-psicoterapia-psicanalitica-muito-alem-da-conversa/">Psicoterapia de Orientação Psicanalítica</a></strong>, a <strong>Terapia Focada na Transferência (TFP)</strong> e a <strong>Terapia Baseada na Mentalização (MBT)</strong>, podem contribuir para esse processo de mudança.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como o Transtorno de Personalidade Borderline interfere na vida?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">O Transtorno de Personalidade Borderline é mais frequente do que muitas pessoas imaginam. Estudos mostram que ele afeta entre <strong>1% e 2% da população geral</strong>, sendo diagnosticado com maior frequência em mulheres, embora também esteja presente em um número significativo de homens (LIEB et al., 2004). Os primeiros sinais costumam surgir no final da adolescência ou no início da vida adulta e, quando não há tratamento, o transtorno pode acompanhar a pessoa durante muitos anos, alternando períodos de maior e menor intensidade dos sintomas (ZANARINI et al., 2003).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, conhecer esses números não é suficiente para compreender o que realmente significa viver com Borderline. O impacto do transtorno vai muito além das estatísticas e costuma estar presente em praticamente todas as áreas da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade para regular as emoções é uma das características mais marcantes. Pequenas frustrações, conflitos nos relacionamentos ou mudanças inesperadas podem desencadear reações emocionais extremamente intensas. Muitas pessoas descrevem a sensação de viver em uma constante montanha-russa emocional, na qual tristeza, medo, raiva e angústia parecem surgir de forma avassaladora e mudar rapidamente ao longo do mesmo dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas oscilações acabam repercutindo diretamente nos relacionamentos. O medo intenso de abandono, frequentemente presente no Transtorno de Personalidade Borderline, faz com que situações cotidianas sejam interpretadas como sinais de rejeição ou perda. Em consequência, os vínculos afetivos podem tornar-se intensos, mas também instáveis, alternando momentos de grande proximidade com conflitos, afastamentos e sofrimento emocional. Não se trata de uma escolha consciente, mas de uma forma de funcionamento psíquico que gera sofrimento tanto para quem vive essa experiência quanto para as pessoas com quem convive (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto bastante comum é a impulsividade. Algumas pessoas recorrem à automutilação, ao uso abusivo de álcool e outras substâncias, à compulsão alimentar, à impulsividade sexual ou a outros comportamentos de risco na tentativa de aliviar emoções que parecem insuportáveis. Embora essas atitudes possam produzir um alívio momentâneo, elas costumam aumentar o sofrimento ao longo do tempo, trazendo consequências importantes para a vida familiar, profissional e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O risco de comportamento suicida também merece atenção. As pesquisas mostram que pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline apresentam uma frequência significativamente maior de tentativas de suicídio quando comparadas à população geral (LIEB et al., 2004). Por isso, buscar um <strong><a href="https://www.psicologalauraguerra.com.br/post/psicoterapia-psicanalitica/">tratamento para Borderline</a></strong> o mais cedo possível não significa apenas reduzir sintomas, mas também proteger a vida e favorecer a construção de novas formas de lidar com o sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de todas essas dificuldades, existe uma notícia importante: hoje sabemos que o prognóstico do Borderline é muito mais favorável do que se acreditava há algumas décadas. Com acompanhamento adequado, muitas pessoas conseguem desenvolver maior estabilidade emocional, fortalecer seus relacionamentos e construir uma vida significativamente mais satisfatória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, para que isso aconteça, o primeiro passo é compreender como esse diagnóstico é realizado e por que ele exige uma avaliação clínica cuidadosa.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como é feito o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">O diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline é essencialmente clínico. Isso significa que ele não pode ser confirmado por exames laboratoriais, testes de imagem ou qualquer outro procedimento isolado. O profissional constrói essa compreensão a partir de entrevistas, da história de desenvolvimento da pessoa, da observação do seu funcionamento emocional e da maneira como os sintomas se manifestam ao longo do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente, os critérios diagnósticos mais utilizados são os descritos no <em>Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais</em> (DSM-5-TR), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022). O manual descreve o Transtorno de Personalidade Borderline como um padrão persistente de instabilidade nos relacionamentos interpessoais, na autoimagem e na regulação das emoções, acompanhado por impulsividade significativa, com início no começo da vida adulta e presente em diferentes contextos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que o diagnóstico seja estabelecido, a pessoa deve apresentar pelo menos cinco dos nove critérios propostos pelo DSM-5-TR. Entre eles estão o medo intenso de abandono, os relacionamentos instáveis, alterações na identidade, impulsividade, comportamentos suicidas ou automutilação, instabilidade afetiva, sentimentos crônicos de vazio, dificuldade para controlar a raiva e episódios transitórios de paranoia ou dissociação relacionados ao estresse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora esses critérios sejam importantes, eles representam apenas um ponto de partida. Na prática clínica, dois pacientes podem preencher o mesmo número de critérios e apresentar histórias de vida, formas de funcionamento psíquico e necessidades terapêuticas completamente diferentes. É justamente por isso que uma avaliação cuidadosa é indispensável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto importante é que diversos transtornos compartilham sintomas semelhantes aos observados no Borderline. Oscilações do humor, impulsividade, ansiedade intensa, dificuldades nos relacionamentos ou alterações na percepção de si podem estar presentes em diferentes condições clínicas. Por esse motivo, o diagnóstico diferencial constitui uma etapa essencial do processo de avaliação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É relativamente comum, por exemplo, que pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline recebam inicialmente outros diagnósticos, como transtorno bipolar, depressão recorrente, transtornos de ansiedade ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Em alguns casos, esses quadros realmente coexistem, tornando a avaliação ainda mais complexa. Em outros, o sofrimento emocional relacionado ao Borderline pode ser interpretado como outra condição, atrasando o início do tratamento mais adequado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa distinção é importante porque cada transtorno possui características próprias e responde de maneira diferente às intervenções clínicas. Um diagnóstico bem estabelecido permite escolher a abordagem terapêutica mais indicada e construir um plano de tratamento coerente com as necessidades de cada pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo dos últimos anos, a compreensão sobre o Transtorno de Personalidade Borderline evoluiu significativamente. Hoje sabemos que ele não pode ser explicado apenas pelos sintomas observados no consultório. As pesquisas em genética, neurociência e psicologia do desenvolvimento mostram que esse funcionamento psíquico resulta da interação entre fatores biológicos e experiências vividas desde os primeiros anos de vida. Conhecer esses aspectos amplia nossa compreensão sobre o transtorno e, ao mesmo tempo, ajuda a desfazer a ideia de que ele decorre de uma única causa ou de uma escolha da própria pessoa.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quais são as causas do Transtorno de Personalidade Borderline?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, buscou-se identificar uma única causa capaz de explicar o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline. Essa expectativa acabou alimentando interpretações simplificadas, como a ideia de que o transtorno seria consequência exclusiva de experiências traumáticas ou, em sentido oposto, resultado apenas de alterações biológicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje sabemos que nenhuma dessas explicações, isoladamente, consegue responder à complexidade do Borderline.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pesquisas mais recentes apontam para um modelo <strong>biopsicossocial</strong>, segundo o qual fatores genéticos, características do temperamento, experiências precoces de desenvolvimento e influências ambientais interagem continuamente ao longo da vida, contribuindo para a organização da personalidade (GUNDERSON; HERPERTZ; SKODOL et al., 2018).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, não existe uma única causa para o Borderline. Existe uma combinação de fatores que, dependendo da intensidade e da forma como se articulam, pode aumentar ou reduzir a vulnerabilidade para o desenvolvimento do transtorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão também ajuda a diminuir a culpa frequentemente atribuída às famílias. Pais e cuidadores exercem um papel importante no desenvolvimento emocional da criança, mas não são os únicos responsáveis pela formação da personalidade. Da mesma forma, possuir predisposição genética não significa que uma pessoa desenvolverá obrigatoriamente o transtorno. O desenvolvimento humano sempre resulta da interação entre múltiplos fatores que se influenciam mutuamente ao longo do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mudança de perspectiva representa um avanço importante na forma como compreendemos o Borderline. Em vez de procurar culpados ou explicações únicas, passamos a investigar como diferentes aspectos do desenvolvimento emocional se combinaram para produzir determinado modo de funcionamento psíquico.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A influência dos fatores biológicos</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">As evidências acumuladas nas últimas décadas mostram que fatores biológicos exercem participação importante no Transtorno de Personalidade Borderline. Estudos com famílias, gêmeos e crianças adotadas indicam que existe uma contribuição genética significativa para características como impulsividade, sensibilidade emocional e dificuldade na regulação das emoções (DISTEL et al., 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, falar em predisposição genética não significa afirmar que exista um &#8220;gene do Borderline&#8221;. Até o momento, nenhuma pesquisa identificou um único gene responsável pelo transtorno. O que os estudos sugerem é a participação de diversos genes, cada um contribuindo de maneira modesta para aumentar a vulnerabilidade individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas influências genéticas costumam se manifestar por meio do temperamento. Algumas crianças, desde muito cedo, apresentam maior sensibilidade aos estímulos do ambiente, reagem de forma intensa às frustrações, demoram mais para recuperar o equilíbrio emocional e demonstram maior dificuldade para lidar com mudanças. Essas características, por si só, não representam um transtorno. Elas constituem formas particulares de funcionamento que poderão seguir diferentes trajetórias ao longo do desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente nesse ponto que os fatores ambientais passam a exercer um papel decisivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma criança emocionalmente sensível, inserida em um ambiente suficientemente estável, previsível e responsivo, pode desenvolver recursos importantes para compreender, nomear e regular suas emoções. Em outro contexto, marcado por negligência, violência, instabilidade, invalidação emocional ou perdas importantes, essa mesma vulnerabilidade pode adquirir um significado completamente diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por essa razão, atualmente não faz mais sentido perguntar se o Borderline é causado pela genética ou pelo ambiente. A pergunta mais adequada é compreender como esses fatores interagem ao longo da vida, influenciando reciprocamente o desenvolvimento da personalidade.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O papel das experiências precoces</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">As primeiras relações afetivas desempenham um papel fundamental na construção da capacidade de regular emoções, desenvolver confiança e estabelecer vínculos seguros. Durante a infância, o cérebro encontra-se em intenso processo de desenvolvimento e depende da qualidade das interações com os cuidadores para organizar muitas de suas funções emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essas relações oferecem proteção, previsibilidade e disponibilidade emocional, a criança vai construindo, pouco a pouco, recursos internos para lidar com frustrações, tolerar separações e compreender seus próprios estados emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, quando predominam experiências de negligência, abuso, violência, instabilidade ou invalidação persistente das emoções, esse processo pode ser significativamente comprometido. Isso não significa que toda pessoa com Borderline tenha vivido situações traumáticas graves, nem que toda criança exposta a essas experiências desenvolverá o transtorno. Mais uma vez, trata-se da interação entre diferentes fatores de vulnerabilidade e proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas últimas décadas, essa compreensão ganhou ainda mais consistência com o avanço das pesquisas em neurociência e epigenética. Esses estudos passaram a demonstrar que as experiências vividas ao longo do desenvolvimento podem influenciar o funcionamento dos sistemas biológicos envolvidos na resposta ao estresse e na regulação das emoções, aproximando cada vez mais os conhecimentos da psicologia, da psiquiatria e das neurociências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente sobre essas descobertas que falaremos a seguir, ao abordar como o cérebro participa do funcionamento do Transtorno de Personalidade Borderline e por que a plasticidade cerebral ajuda a compreender o potencial transformador da psicoterapia.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que acontece no cérebro de uma pessoa com Transtorno de Personalidade Borderline?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Nas últimas décadas, os avanços da neurociência permitiram compreender melhor como o cérebro participa do funcionamento do Transtorno de Personalidade Borderline. Essas descobertas não substituem a compreensão psicológica ou psicanalítica do sofrimento, mas ampliam nossa capacidade de entender por que determinadas experiências emocionais são vividas com tanta intensidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos estudos de neuroimagem mostram que pessoas com Borderline apresentam alterações funcionais em regiões cerebrais responsáveis pelo processamento das emoções, pela memória, pelo controle dos impulsos e pela tomada de decisões (SCHMAHL; BREMNER, 2006; GOODMAN et al., 2014). Essas alterações não significam que exista um &#8220;cérebro borderline&#8221;, mas indicam diferenças no funcionamento de circuitos neurais envolvidos na regulação emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das estruturas mais estudadas é a <strong>amígdala</strong>, localizada profundamente nos lobos temporais. Ela participa da identificação de estímulos potencialmente ameaçadores e da geração de respostas emocionais rápidas, especialmente relacionadas ao medo, à raiva e à percepção de perigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline, diversos estudos observaram uma maior reatividade da amígdala diante de estímulos emocionais, principalmente aqueles relacionados à rejeição, ao abandono e às expressões faciais negativas (DONEGAN et al., 2003). Essa hiperativação ajuda a compreender por que situações aparentemente pequenas podem ser vividas como profundamente ameaçadoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, perceber uma ameaça intensa representa apenas parte do processo. Para que uma emoção seja regulada, outras regiões cerebrais também precisam participar dessa experiência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre elas destaca-se o <strong>córtex pré-frontal</strong>, especialmente suas regiões medial e orbitofrontal. Essas áreas estão relacionadas ao planejamento, ao controle dos impulsos, à capacidade de refletir antes de agir e à modulação das respostas emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o córtex pré-frontal consegue exercer adequadamente essa função reguladora, a pessoa tende a avaliar melhor as situações, ponderar diferentes possibilidades e responder de maneira mais flexível aos acontecimentos. No Borderline, entretanto, vários estudos sugerem uma redução dessa capacidade moduladora, favorecendo respostas emocionais mais intensas e impulsivas (SCHMAHL; BREMNER, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro componente importante dessa rede é o <strong>hipocampo</strong>, estrutura envolvida na consolidação das memórias e na organização das experiências ao longo do tempo. Algumas pesquisas identificaram redução de volume hipocampal em pessoas com histórico de estresse crônico ou trauma precoce, hipótese que pode contribuir para compreender parte das dificuldades relacionadas à integração das experiências emocionais (TEICHER et al., 2003).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas descobertas ajudam a compreender por que algumas pessoas parecem reagir emocionalmente antes mesmo de conseguirem refletir sobre o que está acontecendo. Não se trata de falta de vontade, fraqueza ou ausência de esforço pessoal. Existe uma participação efetiva de circuitos cerebrais que processam as emoções de maneira diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, seria um equívoco imaginar que essas alterações determinam definitivamente o funcionamento da pessoa. O cérebro humano permanece em constante transformação ao longo da vida, reorganizando suas conexões em resposta às experiências vividas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente essa capacidade de mudança que nos leva a um dos conceitos mais importantes da neurociência contemporânea: a <strong>plasticidade cerebral</strong>.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Epigenética: quando as experiências também modificam o funcionamento biológico</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Outro avanço importante das pesquisas foi compreender que a relação entre genes e ambiente é muito mais dinâmica do que se imaginava há algumas décadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo acreditou-se que a herança genética determinava, de forma relativamente fixa, o desenvolvimento de diferentes características humanas. Hoje sabemos que os genes fornecem uma predisposição, mas sua expressão pode ser influenciada pelas experiências vividas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é justamente o campo de estudo da <strong>epigenética</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A epigenética investiga mecanismos capazes de regular a expressão dos genes sem modificar a sequência do DNA. Em outras palavras, determinadas experiências podem &#8220;ligar&#8221; ou &#8220;desligar&#8221; genes envolvidos em diferentes processos biológicos, alterando o funcionamento do organismo ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos experimentais demonstraram que situações de estresse intenso, negligência, violência ou privação emocional podem produzir alterações em sistemas relacionados à resposta ao estresse, especialmente no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável pela liberação do cortisol (MEANEY; SZYF, 2005).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora esses mecanismos sejam extremamente complexos, eles oferecem uma contribuição importante para compreender o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline. Em vez de pensar que genética e ambiente competem entre si, passamos a entender que ambos estabelecem um diálogo permanente durante todo o desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa perspectiva aproxima ainda mais a neurociência das teorias do desenvolvimento emocional. As experiências vividas deixam marcas psicológicas, mas também podem influenciar o funcionamento dos sistemas biológicos envolvidos na regulação das emoções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão também traz uma consequência muito importante para a prática clínica. Se as experiências contribuem para moldar o funcionamento cerebral ao longo da vida, novas experiências relacionais também podem favorecer processos de reorganização desses circuitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É exatamente nesse ponto que o conceito de <strong>plasticidade cerebral</strong> ganha relevância e ajuda a compreender por que a psicoterapia pode produzir mudanças que vão muito além do alívio temporário dos sintomas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Plasticidade cerebral: por que o cérebro pode mudar ao longo da vida?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro adulto possuía uma capacidade muito limitada de transformação. Essa ideia levou muitas pessoas a pensar que padrões emocionais estabelecidos na infância permaneceriam praticamente imutáveis ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje sabemos que isso não corresponde ao que as pesquisas demonstram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cérebro mantém, durante toda a vida, a capacidade de reorganizar suas conexões em resposta às experiências. Esse fenômeno, conhecido como <strong>plasticidade cerebral</strong> ou <strong>neuroplasticidade</strong>, permite que novos circuitos neurais sejam fortalecidos enquanto outros, pouco utilizados, perdem gradualmente sua influência (KANDEL, 2006; SIEGEL, 2020).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa capacidade adaptativa representa um dos fundamentos biológicos da aprendizagem. Sempre que adquirimos um novo conhecimento, desenvolvemos uma habilidade ou passamos a responder de maneira diferente a uma determinada situação, o cérebro modifica, ainda que de forma sutil, a maneira como seus neurônios se comunicam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mesmo princípio se aplica às experiências emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline vivenciaram relações marcadas por insegurança, imprevisibilidade, invalidação emocional ou sofrimento intenso. Essas experiências contribuíram para fortalecer determinados modos de perceber o mundo, interpretar as relações e responder às emoções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, se experiências repetidas participaram da construção desses padrões, novas experiências também podem favorecer sua reorganização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente nesse ponto que a psicoterapia passa a ser compreendida não apenas como um espaço de conversa, mas como uma experiência relacional capaz de promover novas formas de funcionamento emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, essas mudanças não acontecem de maneira imediata. Elas dependem da repetição de experiências diferentes ao longo do tempo, da construção gradual de confiança e da possibilidade de atribuir novos significados às próprias vivências. Em outras palavras, trata-se de um processo de aprendizagem emocional que envolve simultaneamente aspectos psicológicos e biológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão aproxima a neurociência da prática clínica. O cérebro modifica-se porque a pessoa vive novas experiências; e uma dessas experiências pode acontecer justamente dentro da relação terapêutica.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que as pesquisas mostram sobre os efeitos da psicoterapia?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Nas últimas décadas, diversos estudos passaram a investigar se as mudanças observadas durante a psicoterapia poderiam ser identificadas também no funcionamento cerebral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os resultados têm sido consistentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pesquisas utilizando técnicas de neuroimagem demonstram que diferentes modalidades de psicoterapia podem produzir alterações na atividade de regiões cerebrais envolvidas na regulação emocional, no controle dos impulsos, na atenção e no processamento das experiências afetivas (LINDQUIST et al., 2012; BEAUREGARD, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas descobertas não significam que a psicoterapia &#8220;corrija&#8221; o cérebro ou elimine completamente as dificuldades emocionais. O que elas mostram é algo muito mais interessante: experiências relacionais estáveis e repetidas podem favorecer novas formas de organização dos circuitos neurais responsáveis pelo funcionamento emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse conhecimento dialoga diretamente com aquilo que a clínica psicanalítica observa há mais de um século. Mudanças profundas raramente acontecem por meio de uma única interpretação ou de um único insight. Elas costumam surgir gradualmente, à medida que o paciente vive, compreende e elabora experiências emocionais diferentes daquelas que contribuíram para seu sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, esse processo ocorre principalmente por meio da relação estabelecida entre terapeuta e paciente. Ao longo das sessões, emoções, expectativas, medos e padrões de relacionamento passam a ser observados, compreendidos e elaborados em um ambiente suficientemente estável para que novas formas de simbolização possam se desenvolver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa perspectiva também encontra ressonância na teoria do apego, que demonstra como relações consistentes favorecem o desenvolvimento da capacidade de regular emoções, refletir sobre os próprios estados mentais e estabelecer vínculos mais seguros (BOWLBY, 1988; FONAGY et al., 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em vez de compreender a psicoterapia apenas como uma técnica destinada ao alívio dos sintomas, passamos a reconhecê-la como uma experiência de desenvolvimento emocional. É justamente essa possibilidade de reorganização progressiva que ajuda a explicar por que muitas mudanças obtidas durante o tratamento permanecem mesmo após o seu término.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quais tratamentos apresentam melhores resultados para o Transtorno de Personalidade Borderline?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muitos anos, acreditou-se que pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline dificilmente apresentariam melhora significativa. Felizmente, essa percepção mudou de forma expressiva nas últimas décadas. Estudos de acompanhamento de longo prazo demonstram que muitas pessoas conseguem reduzir os sintomas, desenvolver maior estabilidade emocional e construir relações mais satisfatórias quando recebem um tratamento adequado (ZANARINI et al., 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente, existe um amplo consenso de que <strong>a <a href="https://www.psicologalauraguerra.com.br/post/psicoterapia-psicanalitica/">psicoterapia constitui o principal tratamento para o Transtorno de Personalidade Borderline</a></strong>. Embora medicamentos possam ser úteis para controlar sintomas específicos, como ansiedade, depressão, alterações do sono ou impulsividade, eles não promovem, isoladamente, as mudanças estruturais necessárias para o tratamento do transtorno (NICE, 2009).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas últimas décadas, diferentes modalidades de psicoterapia foram desenvolvidas e avaliadas em estudos científicos. Entre aquelas que apresentam maior respaldo empírico destacam-se a <strong>Terapia Focada na Transferência (TFP)</strong>, a <strong>Terapia Baseada na Mentalização (MBT)</strong>, o <strong>Bom Gerenciamento Psiquiátrico (GPM)</strong> e a <strong>Terapia Comportamental Dialética (DBT)</strong>. Apesar das diferenças teóricas e técnicas entre elas, todas demonstraram resultados consistentes na redução do sofrimento emocional, da impulsividade, dos comportamentos autolesivos e na melhora do funcionamento global dos pacientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais do que competir entre si, essas abordagens ampliaram nossa compreensão sobre o tratamento do Borderline. Cada uma enfatiza aspectos diferentes do funcionamento psíquico, oferecendo recursos específicos para lidar com as dificuldades emocionais e relacionais características desse transtorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo, darei maior atenção às modalidades que dialogam diretamente com minha prática clínica e com a <strong>Psicoterapia de Orientação Psicanalítica</strong>. Elas compartilham uma compreensão do sofrimento que valoriza a construção de um vínculo terapêutico consistente, o desenvolvimento da capacidade de compreender os próprios estados mentais e a reorganização gradual dos padrões de funcionamento emocional.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Terapia Focada na Transferência (TFP)</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>Terapia Focada na Transferência (Transference-Focused Psychotherapy – TFP)</strong> foi desenvolvida por Otto Kernberg e colaboradores a partir da teoria das relações objetais. Seu principal objetivo é favorecer uma integração mais estável da identidade e dos relacionamentos por meio da compreensão dos padrões emocionais que surgem na própria relação entre paciente e terapeuta (CLARKIN; YEOMANS; KERNBERG, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline frequentemente vivenciam a si mesmas e aos outros de maneira muito polarizada. Em determinados momentos, alguém pode ser percebido como completamente bom; diante de uma frustração, essa percepção pode mudar rapidamente para uma visão inteiramente negativa. Essas oscilações costumam gerar intenso sofrimento e dificultam a construção de vínculos duradouros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na TFP, esses movimentos emocionais não são analisados apenas a partir dos acontecimentos da vida cotidiana. Eles também são observados à medida que aparecem na relação terapêutica. A transferência torna-se, assim, um espaço privilegiado para compreender como antigos padrões de relacionamento continuam influenciando a experiência atual do paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos estudos mostram que a TFP contribui para reduzir comportamentos suicidas, automutilação, impulsividade e dificuldades nos relacionamentos, além de favorecer maior integração da identidade e melhor capacidade de regulação emocional (CLARKIN et al., 2007).</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Terapia Baseada na Mentalização (MBT)</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>Terapia Baseada na Mentalização (Mentalization-Based Treatment – MBT)</strong> foi desenvolvida por Peter Fonagy e Anthony Bateman a partir da teoria do apego e das pesquisas sobre desenvolvimento emocional (BATEMAN; FONAGY, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mentalizar significa reconhecer que nossos pensamentos, emoções e comportamentos, assim como os das outras pessoas, são influenciados por estados mentais internos que nem sempre são imediatamente visíveis. Essa capacidade permite interpretar as situações de maneira mais flexível, compreender diferentes perspectivas e responder aos conflitos com maior reflexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, durante momentos de intenso sofrimento emocional — especialmente quando existe medo de abandono, rejeição ou perda — essa capacidade pode ficar temporariamente comprometida. Nessas situações, interpretações precipitadas, mal-entendidos e reações impulsivas tendem a tornar-se mais frequentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A MBT procura fortalecer justamente essa habilidade. Ao longo do tratamento, o paciente aprende a observar seus próprios estados mentais, refletir sobre suas emoções e considerar diferentes explicações para aquilo que acontece nos relacionamentos. Esse processo favorece uma compreensão mais integrada das experiências emocionais e reduz a tendência a respostas impulsivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos mostram que a MBT está associada à redução das crises, das internações psiquiátricas, dos comportamentos autolesivos e à melhora da qualidade dos relacionamentos interpessoais (BATEMAN; FONAGY, 2008).</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bom Gerenciamento Psiquiátrico (GPM)</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Bom Gerenciamento Psiquiátrico (Good Psychiatric Management – GPM)</strong> foi desenvolvido por John Gunderson com o objetivo de oferecer um modelo de tratamento acessível, estruturado e baseado nas evidências disponíveis sobre o Transtorno de Personalidade Borderline (GUNDERSON; LINKS, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário do que o nome pode sugerir, o GPM não se restringe ao acompanhamento psiquiátrico. Trata-se de uma forma de compreender e conduzir o tratamento que integra psicoterapia, psicoeducação, manejo de crises, orientação aos familiares e, quando necessário, uso criterioso de medicamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos princípios centrais dessa abordagem é ajudar o paciente a retomar seu funcionamento cotidiano. Em vez de organizar toda a vida em torno do diagnóstico, o tratamento procura fortalecer aspectos como trabalho, estudos, relacionamentos e projetos pessoais, favorecendo uma vida progressivamente mais estável e significativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O GPM também enfatiza a construção de uma relação terapêutica clara, colaborativa e consistente. O terapeuta mantém uma postura ativa, acolhedora e realista, ajudando o paciente a compreender suas dificuldades sem reforçar uma identidade baseada exclusivamente no transtorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa perspectiva dialoga de maneira muito próxima com a prática clínica contemporânea, mostrando que o tratamento do Borderline pode ser ao mesmo tempo tecnicamente consistente e profundamente humano.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Embora cada uma dessas modalidades utilize estratégias específicas, todas compartilham um ponto fundamental: reconhecem que mudanças duradouras acontecem por meio de experiências relacionais capazes de ampliar a compreensão que a pessoa tem de si mesma, de suas emoções e da forma como constroi seus vínculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão também está presente na <strong>Psicoterapia de Orientação Psicanalítica</strong>, que, ao longo das últimas décadas, incorporou importantes contribuições da teoria do apego, da pesquisa em psicoterapia e da neurociência, preservando sua principal característica: compreender cada paciente em sua singularidade e utilizar o vínculo terapêutico como instrumento de transformação psicológica.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como a Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pode ajudar no tratamento do Borderline?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicoterapia de Orientação Psicanalítica compreende que os sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline não surgem de forma isolada. Eles fazem parte de um modo de funcionamento psíquico que foi sendo construído ao longo do desenvolvimento e que continua influenciando a maneira como a pessoa percebe a si mesma, interpreta os acontecimentos e estabelece seus relacionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por essa razão, o tratamento não tem como objetivo apenas reduzir sintomas. Ele procura compreender como esses sintomas se organizam, quais experiências contribuíram para sua formação e de que maneira podem ser transformados ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse processo acontece principalmente por meio da relação estabelecida entre paciente e terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo das sessões, emoções, expectativas, medos, formas de interpretar o comportamento das outras pessoas e padrões repetitivos de relacionamento passam a surgir naturalmente dentro da própria experiência terapêutica. Em vez de serem vistos como obstáculos ao tratamento, esses movimentos tornam-se importantes fontes de informação sobre o funcionamento emocional do paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse espaço de escuta, reflexão e elaboração que muitos padrões passam, pela primeira vez, a ser compreendidos de maneira diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o tempo, situações que antes desencadeavam reações impulsivas começam a ser percebidas com maior clareza. Emoções que pareciam insuportáveis tornam-se mais toleráveis. A necessidade de agir imediatamente pode dar lugar à capacidade de pensar antes de responder. Aos poucos, a pessoa amplia seus recursos para lidar com frustrações, perdas, conflitos e sentimentos de abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas mudanças raramente acontecem de forma linear. Em alguns períodos elas tornam-se mais evidentes; em outros, parecem ocorrer de maneira quase imperceptível. Ainda assim, é justamente essa transformação gradual que costuma produzir resultados mais consistentes ao longo do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicoterapia de Orientação Psicanalítica também reconhece que cada pessoa possui uma história única. Embora duas pessoas possam receber o mesmo diagnóstico, seus conflitos, recursos emocionais, experiências de vida e necessidades terapêuticas nunca serão exatamente iguais. Por isso, o tratamento é sempre construído de forma individualizada, respeitando o ritmo e as possibilidades de cada paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa maneira de compreender o sofrimento aproxima a Psicoterapia de Orientação Psicanalítica de importantes contribuições contemporâneas, como a TFP, a MBT e o GPM. Todas essas abordagens reconhecem que mudanças profundas não acontecem apenas pela aquisição de novos conhecimentos, mas principalmente pela possibilidade de viver experiências relacionais diferentes daquelas que contribuíram para a organização do sofrimento emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais do que ensinar estratégias para controlar emoções, a psicoterapia busca ampliar a capacidade da pessoa compreender aquilo que sente, reconhecer seus padrões de funcionamento e construir formas mais estáveis de se relacionar consigo mesma e com os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente essa transformação, muitas vezes silenciosa e gradual, que permite que mudanças conquistadas durante o tratamento permaneçam presentes muito tempo depois do término da psicoterapia.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que esperar do tratamento?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das perguntas mais frequentes de quem recebe o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline é quanto tempo será necessário para melhorar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não existe uma resposta única para essa pergunta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A duração do tratamento depende de diversos fatores, entre eles a intensidade dos sintomas, a presença de outros transtornos associados, a história de desenvolvimento, o momento de vida em que a pessoa procura ajuda e a regularidade do acompanhamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas mudanças costumam aparecer nos primeiros meses, especialmente relacionadas à compreensão do diagnóstico, ao manejo das crises e à redução de comportamentos impulsivos. Outras transformações, como maior estabilidade emocional, fortalecimento da identidade e mudanças mais consistentes na forma de estabelecer vínculos, geralmente exigem um trabalho mais prolongado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tempo não representa uma limitação da psicoterapia, mas reflete a complexidade dos processos envolvidos na construção da personalidade. Assim como esses padrões foram sendo desenvolvidos ao longo de muitos anos, sua reorganização também acontece gradualmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Felizmente, estudos de acompanhamento mostram que pessoas com Borderline podem apresentar melhora significativa quando permanecem em tratamento. Muitas conseguem reduzir a frequência das crises, diminuir comportamentos autolesivos, desenvolver maior capacidade de regulação emocional, construir relações mais estáveis e retomar projetos pessoais, profissionais e familiares que antes pareciam inviáveis (ZANARINI et al., 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses resultados ajudam a superar uma antiga visão pessimista sobre o transtorno. Hoje sabemos que o diagnóstico de Borderline não determina o futuro de uma pessoa. Ele representa um ponto de partida para compreender seu sofrimento e construir caminhos possíveis de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo das últimas décadas, o conhecimento sobre o Transtorno de Personalidade Borderline evoluiu de forma significativa. A imagem de um transtorno inevitavelmente crônico e resistente ao tratamento deu lugar a uma compreensão muito mais ampla e fundamentada pelas pesquisas em psicoterapia, neurociência, teoria do apego e desenvolvimento humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje sabemos que o Borderline não pode ser explicado por uma única causa, nem compreendido apenas pelos sintomas descritos nos manuais diagnósticos. Cada pessoa chega ao consultório trazendo uma história singular, construída pela interação entre fatores biológicos, experiências relacionais, características do temperamento e contextos de vida que contribuíram para organizar sua forma particular de sentir, pensar e se relacionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, o tratamento também não pode ser reduzido à simples eliminação dos sintomas. À medida que a pessoa passa a compreender melhor seu funcionamento emocional, desenvolve maior capacidade para reconhecer seus estados internos, refletir antes de agir e construir relações mais estáveis, mudanças importantes começam a surgir em diferentes aspectos da vida. Muitas delas acontecem de maneira gradual, quase imperceptível no dia a dia, mas tornam-se evidentes quando se observa o percurso realizado ao longo dos meses ou dos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse processo exige tempo, continuidade e uma relação terapêutica suficientemente estável para que novas experiências emocionais possam ser vividas, compreendidas e integradas. Não se trata de apagar a própria história, mas de ampliar a capacidade de atribuir novos significados às experiências, desenvolver formas mais flexíveis de enfrentar os desafios da vida e construir uma percepção mais integrada de si mesmo e das pessoas ao redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os avanços das pesquisas reforçam aquilo que a prática clínica observa há muito tempo: pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline podem evoluir significativamente quando recebem um tratamento adequado. Redução das crises, melhora da regulação emocional, fortalecimento da identidade, relações interpessoais mais consistentes e maior participação na vida familiar, profissional e social são resultados que têm sido descritos de forma consistente na literatura científica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes na forma como compreendemos o Borderline atualmente. O diagnóstico deixa de representar um ponto de chegada para tornar-se um ponto de partida. A partir dele, torna-se possível compreender o sofrimento de maneira mais ampla, identificar recursos que já existem, desenvolver novas capacidades e construir caminhos mais estáveis para o futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais do que um conjunto de sintomas, o Transtorno de Personalidade Borderline representa uma forma particular de organização da experiência emocional. E, como toda organização psíquica, ela pode ser compreendida, transformada e continuamente reconstruída ao longo da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Referências</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Manuais e Revisões Gerais</strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. <em>Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-5</em>. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIEB, K. et al. Transtorno de personalidade borderline. <em>The Lancet</em>, v. 364, p. 453-461, 2004.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZANARINI, M. C. et al. Curso longitudinal da psicopatologia borderline: acompanhamento prospectivo de 6 anos. <em>American Journal of Psychiatry</em>, v. 160, p. 274-283, 2003.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Genética, Neurobiologia e Epigenética</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">MEANEY, M. J.; SZYF, M. Programação ambiental das respostas ao estresse através da metilação do DNA: a vida na interface entre um ambiente dinâmico e um genoma fixo. <em>Dialogues in Clinical Neuroscience</em>, v. 7, n. 2, p. 103-123, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MINZENBERG, M. J. et al. Disfunção frontolímbica em resposta à emoção facial no transtorno de personalidade borderline: um estudo de ressonância magnética funcional relacionada a eventos. <em>Psychiatry Research: Neuroimaging</em>, v. 163, n. 3, p. 217-231, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHMAHL, C. et al. Imagem por ressonância magnética do hipocampo e da amígdala em mulheres com abuso infantil e transtorno de personalidade borderline. <em>Psychiatry Research: Neuroimaging</em>, v. 122, p. 193-198, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORGERSEN, S. et al. Estudo com gêmeos sobre transtornos de personalidade. <em>Comprehensive Psychiatry</em>, v. 41, p. 416-425, 2000.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Trauma, Apego e Mentalização</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">FONAGY, P. et al. <em>Regulação afetiva, mentalização e o desenvolvimento do self</em>. Porto Alegre: Artmed, 2012.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Tratamentos Psicanalíticos Estruturados (TFP e MBT)</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">BATEMAN, A.; FONAGY, P. <em>Transtorno de personalidade borderline: tratamento baseado na mentalização</em>. Porto Alegre: Artmed, 2016.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">BATEMAN, A.; FONAGY, P. Seguimento de 8 anos de pacientes tratados com terapia baseada na mentalização. <em>American Journal of Psychiatry</em>, v. 165, p. 631-638, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CLARKIN, J. F.; YEOMANS, F. E.; KERNBERG, O. F. <em>Psicoterapia para o transtorno de personalidade borderline: enfoque nas relações de objeto</em>. Porto Alegre: Artmed, 2015.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CLARKIN, J. F. et al. Avaliação de três tratamentos para transtorno de personalidade borderline: estudo multiwave. <em>American Journal of Psychiatry</em>, v. 164, p. 922-928, 2007.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bom Gerenciamento Psiquiátrico (GPM)</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">GUNDERSON, J. G. <em>Transtorno de personalidade borderline: um guia clínico</em>. Porto Alegre: Artmed, 2014.&nbsp;</p>
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		<title>Como manejar crises no Transtorno de Personalidade Borderline: o que os familiares precisam saber.</title>
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		<pubDate>Sat, 24 May 2025 23:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapias]]></category>
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					<description><![CDATA[Introdução Crises fazem parte da experiência emocional de muitas pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Elas surgem de forma intensa, por vezes inesperada, e costumam mobilizar toda a família. Lidar com esse momento pode ser assustador, angustiante e até paralisante, principalmente quando se tem pouco conhecimento sobre o que está acontecendo e o que [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Introdução</strong></h3>



<h4 class="wp-block-heading">Crises fazem parte da experiência emocional de muitas pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Elas surgem de forma intensa, por vezes inesperada, e costumam mobilizar toda a família. Lidar com esse momento pode ser assustador, angustiante e até paralisante, principalmente quando se tem pouco conhecimento sobre o que está acontecendo e o que pode ser feito com segurança e respeito.</h4>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de tudo, é importante dizer com toda clareza:<br><strong>Se a crise for intensa, envolver risco de suicídio, agressividade física ou desorganização grave do pensamento e do comportamento, a conduta mais adequada é procurar um serviço de emergência psiquiátrica.</strong><strong><br></strong><strong>Nestes casos, não é papel da família conter sozinha a situação. Preservar a vida e a integridade física e psíquica da pessoa — e de todos ao redor — é prioridade absoluta.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As orientações que apresento aqui <strong>não substituem o acompanhamento profissional individualizado</strong>. Cada situação é única, e nem todas as estratégias funcionam para todas as famílias ou para todas as fases da crise. <strong>Busque apoio técnico qualificado sempre que necessário.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dito isso, meu objetivo neste artigo é compartilhar, com base em anos de prática clínica e nos referenciais do<strong> Manejo Clínico Generalista para o Transtorno de Personalidade Borderline (GPM &#8211; Harvard Medical School)</strong> e do <strong>Grupo de Apoio a Familiares do Hospital McLean</strong>, algumas orientações que podem ajudar a compreender o que está por trás de muitos episódios de crise — e, sobretudo, <strong>como a família pode agir com mais segurança, clareza e serenidade nesses momentos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos familiares me dizem: <em>&#8220;Sinto que estou pisando em ovos o tempo todo.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><br></em>Esse sentimento não é raro — e não é exagero. O convívio com alguém que sofre com o TPB frequentemente se torna tenso, imprevisível e doloroso, principalmente quando a família se vê sozinha diante de episódios de desregulação emocional intensa, rompantes agressivos, ameaças de suicídio ou comportamentos autodestrutivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, <strong>com conhecimento e apoio, é possível sair do lugar de exaustão e reatividade, e entrar num modo mais reflexivo e cuidadoso de lidar com essas situações</strong>. Isso não significa se tornar terapeuta da pessoa com TPB, nem carregar responsabilidades que não são suas. Mas sim aprender <strong>a responder — e não apenas a reagir — aos movimentos da crise</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do artigo, vamos conversar sobre:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>o que caracteriza uma crise no TPB;<br></li>



<li>como compreender os padrões emocionais envolvidos;<br></li>



<li>quais estratégias familiares têm se mostrado mais efetivas para o manejo imediato e preventivo das crises;<br></li>



<li>e qual é o papel do grupo de apoio nesse processo de cuidado ampliado.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que é considerado uma crise no contexto do TPB</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No cotidiano de quem convive com o Transtorno de Personalidade Borderline, o termo “crise” é usado com frequência — mas o que realmente caracteriza uma crise dentro dessa estrutura psíquica?</p>



<p class="wp-block-paragraph">De forma geral, podemos entender a crise como um momento em que a pessoa perde a capacidade habitual de regulação emocional e passa a agir, sentir e se relacionar de forma desorganizada, intensa e, muitas vezes, perigosa para si mesma ou para os outros. É uma experiência em que há um colapso momentâneo da capacidade de pensar antes de agir, de confiar no vínculo com o outro ou de sustentar uma visão coerente de si mesma e do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma crise, a dor psíquica da pessoa com TPB <strong>não consegue ser nomeada, simbolizada ou contida</strong>, e acaba sendo expressa através de comportamentos abruptos — como explosões de raiva, ameaças de suicídio, automutilação, fuga de casa, uso abusivo de substâncias, rompimentos impulsivos ou acessos de choro e desespero que parecem &#8220;sem motivo&#8221; para quem está de fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas manifestações são mais do que “dramas” ou “birras”. Elas são <strong>modos primitivos de comunicação emocional</strong>, que emergem quando o sofrimento interno é grande demais para ser verbalizado ou mentalizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como afirma John Gunderson, psiquiatra e criador do modelo GPM:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“As crises borderline ocorrem quando a dor psíquica se torna insuportável e a pessoa se sente sozinha, sem alternativas ou esperança. A crise é um grito por conexão, mas que geralmente é expressado de forma que afasta ainda mais o outro.”</em><em><br></em> (Gunderson, 2014, p. 23)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista clínico, os comportamentos mais comuns em situações de crise borderline incluem:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Ameaças ou tentativas de suicídio</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Automutilações (cortes, arranhões, queima com cigarro, entre outros)</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Rompimentos impulsivos de vínculos afetivos ou profissionais</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Comportamentos autodestrutivos como uso excessivo de álcool, drogas, direção em alta velocidade ou sexo sem proteção</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Explosões de raiva, gritos, ofensas, objetos quebrados</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Ataques de pânico ou estados de ansiedade paralisante</strong><strong><br></strong></li>



<li><strong>Sumiços repentinos ou isolamento completo</strong><strong><br></strong></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">É importante saber que <strong>nem toda crise se manifesta de forma “visível”</strong>. Algumas pessoas com TPB entram em estados de retraimento profundo, culpabilização, silêncio extremo ou apatia. Nesses casos, o sofrimento pode estar igualmente intenso, embora se expresse de forma mais “quieta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, o mais importante para os familiares não é classificar o que é ou não é “grave o suficiente”, mas sim <strong>reconhecer o padrão emocional que se repete</strong> e perceber quando há sinais de desorganização, impulsividade, risco ou colapso relacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto essencial: <strong>as crises borderline costumam ter um gatilho, mesmo que pareça “nada demais” para quem está de fora.</strong> Um comentário banal, uma ausência momentânea, uma frustração pequena podem ser interpretadas como abandono, rejeição ou traição — e isso pode disparar uma sequência de reações desproporcionais ao fato que as desencadeou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa hipersensibilidade relacional não é teatral ou voluntária. Ela faz parte da estrutura do transtorno. E, por isso mesmo, <strong>a maneira como a família lida com esses momentos pode tanto ajudar a conter, quanto acirrar a crise</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Manejo clínico segundo o modelo GPM</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O modelo <strong>Good Psychiatric Management (GPM)</strong>, desenvolvido por John Gunderson e Cynthia Berkowitz, foi criado com o objetivo de oferecer uma abordagem estruturada, pragmática e acessível para o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline — tanto para profissionais quanto para familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O GPM parte do princípio de que, apesar das dificuldades significativas na regulação emocional, as pessoas com TPB podem se beneficiar de <strong>intervenções simples, coerentes e sustentáveis</strong>, desde que baseadas em vínculo, psicoeducação e manejo estruturado da crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das ideias mais centrais do modelo é que <strong>a crise deve ser compreendida, mas não reforçada</strong>. Isso significa que, ao lidar com um episódio agudo, o foco não deve estar em “controlar” ou “acalmar” a pessoa a qualquer custo, mas sim em ajudá-la a retomar o eixo da realidade, reconhecer os gatilhos, identificar opções e agir de forma mais funcional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gunderson reforça:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“O objetivo não é suprimir a crise, mas dar à pessoa os recursos para atravessá-la com o menor prejuízo possível, reconhecendo que a instabilidade emocional faz parte da condição, mas não precisa governar sua vida.”</em><em><br></em> (Gunderson, 2014, p. 112)</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Princípios do manejo no GPM que também se aplicam à família:</strong></h3>



<ol class="wp-block-list">
<li><strong>Validar a dor, não o comportamento disfuncional<br></strong>É importante reconhecer que a pessoa está sofrendo (“Eu vejo que está difícil para você”) sem necessariamente concordar com a forma como ela está lidando com esse sofrimento.<br></li>



<li><strong>Ser firme e estável, mesmo diante da instabilidade do outro<br></strong>Quando o familiar se desespera junto com a pessoa em crise, isso tende a intensificar a desorganização emocional. Manter um tom de voz firme, postura clara e atitudes coerentes é essencial.<br></li>



<li><strong>Não prometer o que não pode cumprir<br></strong>Em momentos de crise, é comum que a pessoa com TPB exija garantias: “Você vai ficar comigo pra sempre?”, “Promete que nunca vai me deixar?”, “Se você me amar de verdade, faz isso por mim&#8230;”<br>O GPM orienta a não reforçar esse tipo de pensamento de tudo-ou-nada. Ao invés de prometer ou rejeitar, pode-se dizer:<br><em>“Eu me importo com você, e quero continuar por perto, mas precisamos encontrar uma forma melhor de lidar com isso.”<br></em></li>



<li><strong>Reforçar a funcionalidade em vez da dependência<br></strong>Sempre que possível, valorize atitudes da pessoa que demonstram capacidade de enfrentamento. Pequenos progressos devem ser reconhecidos, mas sem criar a ilusão de “cura”. Isso ajuda a pessoa a perceber que pode, sim, lidar com os próprios sentimentos — ainda que com dificuldade.<br></li>



<li><strong>Focar no aqui e agora<br></strong>O GPM não se perde em interpretações do passado durante a crise. O foco é o momento presente: “O que está acontecendo agora?”, “Como podemos atravessar isso sem se machucar?”, “O que pode te ajudar neste instante?”.<br></li>



<li><strong>Evitar reforçar crises como via de acesso ao vínculo<br></strong>Um cuidado importante é não reforçar — ainda que sem querer — a ideia de que “só na crise eu sou visto(a)”. Por isso, o ideal é que o suporte esteja presente também fora dos momentos críticos. Isso ajuda a construir uma referência mais sólida de vínculo.<br></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">O manejo da crise, segundo o GPM, se baseia em três pilares:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Clareza e coerência nas atitudes;<br></li>



<li>Presença emocional sem sobrecarga;<br></li>



<li>Estímulo à autonomia gradual e funcional.<br></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Ao invés de respostas dramáticas ou tentativas de resolver tudo, o GPM propõe um estilo de cuidado mais <strong>realista, afetivo e estável</strong>, em que o familiar sustenta a presença — mas não se dissolve nela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa abordagem não elimina as crises. Mas diminui sua intensidade, sua duração e, com o tempo, <strong>ajuda a construir novas formas de enfrentamento, tanto para quem sofre quanto para quem cuida.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O lugar da família nas crises e estratégias de manejo possível</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma crise acontece no contexto do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), é comum que os familiares se sintam perdidos, entre o impulso de ajudar a qualquer custo e a vontade de se afastar para se proteger. O que muitos não sabem — e poucos profissionais dizem com clareza — é que a <strong>forma como a família reage</strong> pode influenciar diretamente a intensidade, a duração e até a recorrência das crises.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que a família seja responsável por elas, mas sim que <strong>os vínculos familiares são parte ativa da experiência emocional</strong> da pessoa com TPB. As crises, muitas vezes, se organizam em torno desses laços — e não à margem deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“O paciente borderline não vive sua dor isoladamente. O ambiente relacional imediato — geralmente a família — participa, sofre e muitas vezes se confunde com os movimentos de desorganização afetiva.”</em><em><br></em> — John G. Gunderson, <em>Handbook of Good Psychiatric Management</em>, 2014.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Por que o envolvimento da família importa?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">A experiência clínica mostra que, quando os familiares estão informados e orientados, o paciente tende a desenvolver estratégias mais funcionais de enfrentamento. Já quando o ambiente familiar é reativo, ambíguo ou sobrecarregado de culpa, as crises se tornam mais frequentes e desorganizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O programa de apoio do Hospital McLean deixa isso claro:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Famílias que aprendem a reconhecer padrões disfuncionais de interação e passam a responder com mais estabilidade e consistência emocional contribuem significativamente para a melhora do paciente — e para sua própria saúde mental.”</em><em><br></em> — <em>Family Guidelines</em>, McLean Hospital, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O manejo da crise, portanto, começa <strong>antes mesmo da crise acontecer</strong>, com a construção de uma presença familiar que seja menos reativa, mais previsível e capaz de oferecer um mínimo de continência emocional.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que a família pode fazer — e o que precisa evitar</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">A seguir, apresento orientações práticas que podem ajudar familiares a responder com mais clareza às situações de crise. Não se trata de um roteiro a ser seguido à risca, mas de um <strong>conjunto de referências que podem ser adaptadas à realidade de cada família</strong>.</p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>1. Reconheça os sinais precursores</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">A crise não costuma “explodir” sem aviso. Geralmente há sinais: aumento da sensibilidade, mudanças no padrão de sono, agitação incomum, mensagens ambíguas sobre sofrimento, episódios de irritação ou retraimento abrupto. Observar esses sinais ajuda a intervir com antecedência e a evitar respostas impulsivas.</p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>2. Diminua a reatividade emocional</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Evite reagir com raiva, sarcasmo ou desespero. Ainda que o conteúdo da crise seja doloroso, ofensivo ou provocador, <strong>responder com intensidade só reforça o ciclo da desorganização</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acolher o sofrimento não significa ceder a tudo. Ao contrário: o que a pessoa com TPB precisa em momentos de crise é <strong>uma presença firme, mas emocionalmente regulada</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu percebo que você está sofrendo. Não vou discutir agora, mas continuo aqui. Podemos conversar quando as coisas estiverem mais calmas.”</em></p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>3. Valide o sentimento, sem reforçar o comportamento</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">A validação é uma ferramenta central no manejo familiar. Ela permite reconhecer o sofrimento do outro sem, no entanto, incentivar comportamentos autodestrutivos ou manipulativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evite frases como:<br>✖️ <em>“Você só quer chamar atenção.”<br></em>✖️ <em>“Isso é chantagem.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Substitua por:<br>✔️ <em>“Imagino que esteja se sentindo muito só agora.”<br></em>✔️ <em>“Não sei exatamente o que você está sentindo, mas vejo que está difícil.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A validação não apaga o problema, mas cria uma base de escuta a partir da qual outras atitudes poderão ser pensadas.</p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>4. Estabeleça limites claros, com calma e coerência</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos familiares, por medo de acionar uma crise, acabam abrindo mão dos próprios limites. O problema é que isso fragiliza ainda mais o vínculo e aumenta a sensação de descontrole.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Limites firmes, comunicados com respeito, ajudam a <strong>organizar a relação e a oferecer um contorno emocional</strong> que a própria pessoa com TPB não consegue sustentar sozinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Exemplo:<br><em>“Eu entendo sua dor, mas não posso aceitar que você grite ou me agrida verbalmente.”</em></p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>5. Tenha um plano de ação para emergências</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Prepare-se, com antecedência, para os momentos mais críticos. Isso evita decisões impulsivas ou atitudes movidas apenas pelo medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um plano básico pode incluir:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Números de emergência (SAMU, CAPS, psiquiatra de referência);<br></li>



<li>Uma pessoa de confiança que possa ser acionada;<br></li>



<li>Um local seguro e silencioso para contenção, se necessário;<br></li>



<li>Frases ou gestos que costumam acalmar a pessoa;<br></li>



<li>Decisões claras sobre o que será feito em caso de risco grave.<br></li>
</ul>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>6. Não use a crise como momento de decisão</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Evite discutir relacionamentos, limites ou decisões importantes durante uma crise. A pessoa está vulnerável, desorganizada e com o pensamento comprometido. Priorize <strong>a segurança emocional e física no momento presente</strong>.</p>



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<h4 class="wp-block-heading"><strong>7. Cuide de si para sustentar o cuidado</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Cuidar de alguém em crise frequente é exaustivo. Por isso, é indispensável que o familiar também tenha espaço para elaborar seus sentimentos, reconhecer seus limites e se fortalecer. Psicoterapia, redes de apoio e pausas legítimas não são luxo: são estratégias de sobrevivência emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“O paciente precisa de uma família que se cuide — não de mártires exaustos.”</em><em><br></em> — Cynthia Berkowitz, <em>McLean Family Manual</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph">A crise no TPB não é apenas um momento de explosão emocional. Ela é um ponto de ruptura que, se repetido sem elaboração, corrói os vínculos e desorganiza todo o campo relacional. Mas, se acolhida com escuta, sustentação e limite, ela também pode se tornar <strong>um espaço de construção de novas formas de estar junto</strong> — com mais clareza, respeito e presença possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A família não precisa — e não deve — atravessar isso sozinha. Mas também não está condenada à impotência. Informada e apoiada, ela pode ocupar um lugar fundamental no processo de cuidado, sem se anular e sem adoecer junto.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Apoio mútuo e práticas de autocuidado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma pessoa da família é diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), é comum que todos ao redor entrem, de algum modo, em uma espécie de modo de sobrevivência. Os dias passam a girar em torno de “evitar crises”, “controlar danos”, “prever explosões” — e, aos poucos, a vida emocional dos outros membros da família vai sendo colocada em segundo plano, como se o único foco possível fosse o paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse padrão de funcionamento, embora compreensível, é <strong>inviável a longo prazo</strong>. Nenhum vínculo se sustenta no sacrifício contínuo de um lado só. O cuidado exige presença, mas também exige que quem cuida esteja minimamente bem. Por isso, uma das dimensões mais importantes do manejo familiar no TPB é a <strong>construção de um espaço de cuidado para os próprios familiares</strong> — não como um luxo, mas como uma condição ética e psíquica para sustentar o vínculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Não é raro que os familiares de pacientes borderline desenvolvam sintomas ansiosos, depressivos ou de esgotamento emocional. O sofrimento não se restringe ao paciente. Por isso, o apoio familiar precisa incluir quem cuida.”</em><em><br></em> — Gunderson &amp; Berkowitz, <em>Family Guidelines</em>, McLean Hospital, 2005.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Por que o apoio mútuo importa?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos familiares relatam que se sentem sozinhos, envergonhados por não saber o que fazer, ou culpados por estarem irritados, cansados ou até com raiva da pessoa que está em sofrimento. Essas emoções, embora difíceis de admitir, são legítimas. E o espaço para poder compartilhá-las <strong>sem julgamento</strong> é uma das chaves para interromper ciclos de silêncio, ressentimento e afastamento afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Grupos de apoio entre familiares são recursos fundamentais nesse sentido. Eles oferecem:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Informações confiáveis sobre o transtorno;<br></li>



<li>Contato com outras famílias que vivem desafios semelhantes;<br></li>



<li>Redução do sentimento de isolamento e vergonha;<br></li>



<li>Reflexões sobre os próprios padrões relacionais;<br></li>



<li>Apoio emocional e acolhimento em momentos críticos.<br></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Os grupos multifamiliares não são apenas educativos. Eles criam um ambiente relacional que ajuda os familiares a se fortalecerem mutuamente, reconhecerem seus próprios limites e se libertarem da culpa crônica que muitas vezes carregam.”</em><em><br></em> — Cynthia Berkowitz, <em>Group Treatment for Families</em>, McLean Hospital</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que é autocuidado no contexto de uma família afetada pelo TPB?</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Autocuidado é, antes de tudo, <strong>olhar para si e reconhecer que você também está implicado na relação e precisa de um espaço para elaboração</strong>. É dar-se o direito de sentir, de falhar, de pedir ajuda, de dizer “não”, de fazer pausas — sem culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Algumas práticas concretas incluem:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Participar de terapia individual, se possível;<br></li>



<li>Estabelecer limites de tempo e energia dedicados ao cuidado;<br></li>



<li>Criar momentos pessoais de descanso, lazer e silêncio;<br></li>



<li>Manter vínculos com pessoas que não estão envolvidas na situação familiar;<br></li>



<li>Ter um plano de apoio para quando você mesmo estiver emocionalmente sobrecarregado.<br></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cuidar de si não enfraquece o vínculo. Pelo contrário: fortalece a presença.</strong><strong><br></strong> Quanto mais o familiar estiver emocionalmente abastecido, mais poderá responder com clareza e continuidade nos momentos em que for necessário sustentar a crise — sem adoecer junto com ela.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Conclusão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As crises no Transtorno de Personalidade Borderline não são episódios isolados — são expressões de uma dor psíquica que, muitas vezes, não encontra palavras. Para quem vive com esse transtorno, os momentos de desorganização emocional podem parecer a única forma possível de pedir ajuda, de ser visto ou de tentar conter uma sensação interna de vazio, rejeição ou abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os familiares, esses momentos são vividos com medo, angústia, impotência ou frustração. E tudo isso é legítimo. Não existe manual pronto, nem resposta perfeita. Cada família, cada pessoa, cada vínculo terá um ritmo próprio de aprendizado e reconstrução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que a prática clínica nos mostra — e os estudos do modelo GPM e do Grupo Multifamiliar do Hospital McLean reforçam — é que <strong>as crises não precisam governar a vida emocional de quem tem TPB nem das pessoas que estão ao redor</strong>. Com informação, presença afetiva e limites claros, é possível atravessar esses episódios de forma mais cuidadosa, sem reforçar os padrões que alimentam o sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“A família não é o problema. Mas, quando bem orientada, pode se tornar uma parte essencial da solução.”</em><em><br></em> — John G. Gunderson, <em>GPM Handbook</em>, 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph">Buscar apoio profissional é fundamental. A família pode oferecer continência, mas não substitui a psicoterapia, o acompanhamento médico ou a rede de cuidados. E, para que esse apoio familiar seja realmente possível, ele precisa vir de um lugar que também se cuida — com pausas, escuta, redes de apoio e acolhimento dos próprios limites.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você é familiar de alguém com TPB, saiba: <strong>você também importa.</strong> Sua saúde mental, sua capacidade de sustentar vínculos e seu direito de existir com dignidade dentro dessa dinâmica relacional são fundamentais para que qualquer cuidado seja possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cuidar de quem cuida é parte do tratamento.<br>E nenhum cuidado é sustentável sem vínculo, sem escuta e sem a construção mútua de um espaço de respeitosa transformação.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>📚 Referências</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>GUNDERSON, J. G.; BERKOWITZ, C. <em>Handbook of Good Psychiatric Management for Borderline Personality Disorder</em>. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2014.<br></li>



<li>GUNDERSON, J. G.; BERKOWITZ, C. <em>Family Guidelines: Borderline Personality Disorder</em>. Belmont: McLean Hospital, 2005. Disponível em: https://www.borderlinepersonalitydisorder.org/wp-content/uploads/2011/08/Family-Guidelines-standard.pdf. Acesso em: 20 junho 2024.</li>
</ul>
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		<title>A Psicoterapia Exige Trabalho Emocional.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[_adm-site@]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:32:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapias]]></category>
		<category><![CDATA[#borderline]]></category>
		<category><![CDATA[#controleemocional]]></category>
		<category><![CDATA[#manejocriseborderline]]></category>
		<category><![CDATA[#psicoterapiaparaborderline]]></category>
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					<description><![CDATA[A psicoterapia não exige apenas tempo e dedicação. Ela também envolve disponibilidade emocional para olhar para aspectos de si que, muitas vezes, foram evitados durante anos. Esse processo pode despertar desconforto, dúvidas e conflitos, mas é justamente essa elaboração que permite compreender padrões repetitivos, transformar relações e construir formas mais saudáveis de viver. Neste artigo, discutimos por que o envolvimento emocional faz parte da psicoterapia e como esse trabalho contribui para mudanças que vão além do alívio dos sintomas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 id="viewer-p899f94313" class="wp-block-heading">A ideia de uma &#8220;Psicoterapia de Baixo Custo Emocional&#8221; é um conceito que, embora possa parecer atraente à primeira vista, revela uma compreensão superficial do processo terapêutico e de suas exigências intrínsecas.</h4>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-p899f94313"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando alguém procura psicoterapia, geralmente espera aliviar o sofrimento, compreender melhor o que está vivendo e encontrar maneiras menos dolorosas de se relacionar consigo mesma e com os outros. É natural desejar que esse processo traga alívio. O que nem sempre fica claro, porém, é que a psicoterapia não produz mudanças profundas sem mobilizar aquilo que a pessoa aprendeu a evitar, silenciar, racionalizar ou repetir sem perceber. Nesse sentido, falar em “baixo custo emocional” não significa falar de atendimento gratuito, valor social ou preço acessível. O custo ao qual me refiro é psíquico: o esforço interno necessário para entrar em contato com aspectos de si que, durante muito tempo, permaneceram protegidos por defesas, sintomas e modos habituais de funcionamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há tratamentos que podem ser financeiramente acessíveis e, ainda assim, emocionalmente exigentes. Também existem terapias caras que pouco mobilizam o paciente quando o processo se mantém superficial. O valor cobrado pela sessão e a profundidade do trabalho são dimensões diferentes. Uma psicoterapia de valor social não é uma psicoterapia menor, assim como pagar um preço elevado não garante transformação. O que define a implicação emocional é a qualidade do encontro terapêutico, o compromisso com o processo e a disposição para examinar aquilo que se repete na própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psicoterapia começa a se aprofundar quando a pessoa deixa de falar apenas sobre o que os outros fizeram e passa, aos poucos, a perceber como participa das situações que a fazem sofrer. Essa passagem costuma ser delicada, porque não significa culpabilizar o paciente nem ignorar as violências, perdas ou injustiças que ele viveu. Significa reconhecer que, mesmo quando não escolhemos o que nos aconteceu, desenvolvemos maneiras de sobreviver, interpretar e responder ao mundo. Algumas dessas formas foram necessárias em determinados momentos, mas podem continuar operando muito tempo depois, limitando escolhas, vínculos e possibilidades de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva psicanalítica, os sintomas não são simples falhas que precisam ser eliminadas. Eles carregam uma função e frequentemente representam tentativas de organizar conflitos que ainda não puderam ser pensados de outra maneira. A ansiedade pode manter a pessoa em alerta diante de perigos que já não estão presentes. A raiva pode protegê-la de sentimentos de dependência, humilhação ou desamparo. A submissão pode preservar um vínculo vivido como indispensável. A impulsividade pode interromper estados emocionais que parecem impossíveis de suportar. Quando a terapia começa a tocar nessas construções, o paciente pode sentir que está perdendo algo que, apesar de causar sofrimento, também funcionava como proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que o desconforto terapêutico não pode ser entendido apenas como um obstáculo. Em muitos momentos, ele indica que algo anteriormente mantido à distância começou a adquirir forma. Freud já mostrava que há uma tendência a repetir, na vida e na própria relação terapêutica, aquilo que não pôde ser lembrado ou elaborado. A pessoa não chega à sessão trazendo apenas uma história para ser contada. Ela traz modos de se defender, de confiar, de desconfiar, de agradar, de atacar, de desaparecer ou de exigir do outro determinadas respostas. Esses modos passam a aparecer também na relação com a terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marion Minerbo descreve a transferência como uma atualização do funcionamento psíquico dentro da relação analítica. O paciente não apenas conta que teme ser abandonado; pode interpretar um silêncio, uma mudança de horário ou as férias da terapeuta como sinais de afastamento. Não apenas relata que precisa agradar; pode começar a esconder discordâncias para ser considerado um “bom paciente”. Não somente fala sobre relações em que se sente ignorado; pode viver a terapeuta como alguém que nunca oferece atenção suficiente. A psicoterapia se torna transformadora quando essas experiências podem ser observadas enquanto acontecem, sem serem imediatamente desmentidas, confirmadas ou transformadas em novas rupturas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse trabalho exige implicação emocional porque a pessoa precisa tolerar, por algum tempo, não saber exatamente quem está certo, qual é a resposta definitiva ou como eliminar rapidamente aquilo que sente. Em vez de agir impulsivamente, romper o vínculo ou buscar uma solução imediata, ela é convidada a permanecer em contato com a experiência e a pensá-la junto com a terapeuta. Bion valorizava justamente essa capacidade de suportar o desconhecido sem preencher rapidamente o vazio com explicações tranquilizadoras. Aprender a permanecer diante de uma emoção antes de descarregá-la é uma aquisição psíquica importante, mas raramente confortável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Winnicott também ajuda a compreender por que o processo terapêutico precisa de tempo, regularidade e continuidade. Certas experiências internas só podem emergir quando existe um ambiente suficientemente estável para que a pessoa se arrisque a baixar algumas defesas. O vínculo terapêutico não serve apenas para confortar. Ele oferece uma base a partir da qual o paciente pode experimentar sentimentos contraditórios, reconhecer agressividade, dependência, inveja, medo, desejo e ressentimento sem precisar dividir a si mesmo entre partes completamente boas e completamente ruins. Essa integração produz alívio, mas antes pode gerar estranhamento, vergonha e resistência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas organizações borderline, esse trabalho pode ser especialmente intenso porque partes da experiência emocional permanecem pouco integradas. A pessoa pode amar profundamente alguém e, diante de uma frustração, sentir que nunca foi amada. Pode perceber-se forte e capaz em um momento e, pouco depois, sentir-se completamente vazia ou quebrada. Na terapia, essas partes também aparecem separadamente. Em uma sessão, a terapeuta pode ser vista como a única pessoa capaz de compreender; em outra, como indiferente, incompetente ou abandonadora. O objetivo não é eliminar essas oscilações por meio de correções rápidas, mas ajudar a paciente a reconhecer que sentimentos contraditórios podem coexistir sem destruir a relação nem a própria identidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A terapeuta também realiza um trabalho emocional importante. Ela precisa receber projeções, suportar afetos desconfortáveis e distinguir aquilo que pertence aos próprios conflitos daquilo que está sendo mobilizado pela relação. Muitas vezes, a compreensão não se organiza inteiramente durante a sessão. Fragmentos do encontro continuam sendo pensados depois, quando a terapeuta revê o que sentiu, percebe repetições, estabelece ligações e procura compreender o que ainda não pôde ser representado pelo paciente. A psicoterapia, portanto, não se resume aos cinquenta minutos visíveis. Há um trabalho de elaboração que continua sendo realizado, ainda que silenciosamente, entre uma sessão e outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse percurso também pode despertar vontade de desistir. Às vezes, o paciente sente que está piorando porque começou a perceber conflitos que antes permaneciam encobertos. Em outros momentos, acredita que a terapia não está funcionando porque os padrões continuam aparecendo. Entretanto, reconhecer a repetição já representa uma mudança importante. Antes, a pessoa vivia determinada situação como se estivesse acontecendo pela primeira vez. Depois, começa a perceber que existe um roteiro recorrente. Mais adiante, passa a reconhecer o movimento enquanto ele acontece. Somente então começa a construir uma resposta diferente. A transformação psíquica raramente ocorre como uma revelação súbita; ela costuma nascer de pequenas mudanças acumuladas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Persistir na terapia não significa permanecer indefinidamente em qualquer tratamento, aceitar uma relação terapêutica inadequada ou suportar intervenções invasivas. O paciente pode e deve avaliar se existe confiança, competência técnica, respeito e possibilidade de trabalho conjunto. A persistência necessária é outra: trata-se de não abandonar automaticamente o processo toda vez que surgem frustração, vergonha, raiva ou vontade de fugir. Às vezes, falar sobre o desejo de interromper pode ser mais transformador do que simplesmente desaparecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, uma psicoterapia totalmente isenta de desconforto provavelmente produzirá mudanças limitadas. O tratamento não precisa ser brutal, punitivo ou emocionalmente desorganizador. Uma boa terapia respeita o ritmo do paciente e não força revelações para as quais ele ainda não possui recursos. Ao mesmo tempo, ela também não pode se reduzir a uma conversa que apenas confirma percepções já conhecidas e evita qualquer tensão. O cuidado terapêutico inclui acolher, mas também ajudar a pensar; respeitar defesas, mas compreender por que elas existem; oferecer apoio, mas sem retirar do paciente a possibilidade de participar ativamente da própria transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verdadeiro custo emocional da psicoterapia está na disposição para rever certezas, reconhecer ambivalências, tolerar frustrações e assumir responsabilidade pela maneira como se vive aquilo que aconteceu. Esse investimento pode ser doloroso, mas não precisa ser vivido como sofrimento estéril. Quando existe um vínculo terapêutico consistente, o desconforto deixa de ser apenas dor e se transforma em matéria de elaboração.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-g50hs94026">Talvez, então, a pergunta não seja se existe uma psicoterapia de baixo custo emocional, mas quanto cada pessoa consegue investir, naquele momento, em seu próprio processo de transformação. O trabalho terapêutico não exige heroísmo nem exposição ilimitada. Exige presença, curiosidade e uma disponibilidade gradual para conhecer partes de si que foram evitadas, protegidas ou esquecidas. É esse compromisso, construído ao longo do tempo, que torna possível viver com mais liberdade, compreender melhor os próprios vínculos e deixar de repetir, sem escolha, aquilo que antes parecia inevitável.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Referências </h3>



<p class="wp-block-paragraph">BION, Wilfred R. <em>Aprendendo com a experiência</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: ______. <em>Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (&#8220;O caso Schreber&#8221;), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913)</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras Completas, v. 10).</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: ______. <em>Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (&#8220;O caso Schreber&#8221;), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913)</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras Completas, v. 10).</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUNDERSON, John G.; BERKOWITZ, Cynthia. <em>Handbook of Good Psychiatric Management for Borderline Personality Disorder</em>. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KERNBERG, Otto F. <em>Transtornos graves da personalidade: estratégias psicoterapêuticas</em>. Porto Alegre: Artmed, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MINERBO, Marion. <em>Diálogos sobre a clínica psicanalítica</em>. São Paulo: Blucher, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WINNICOTT, Donald W. <em>O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional</em>. Porto Alegre: Artmed, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualizado: 10 de jul.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Psicoterapia Psicanalítica: como um tratamento baseado no vínculo e na escuta pode promover mudanças duradouras?</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:30:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Psicoterapia de Orientação Psicanalítica busca compreender as origens do sofrimento emocional e promover mudanças duradouras na forma como a pessoa sente, pensa e se relaciona. Neste artigo, você conhecerá como funciona essa abordagem, o papel do vínculo terapêutico e por que ela vai além do alívio dos sintomas.]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Laura Guerra &#8211; Psicóloga Clínica | CRP 01 8482</p>



<h4 id="viewer-1k3hu70" class="wp-block-heading has-text-color has-link-color wp-elements-4d1be6911955b10bf8c2896208a8c842" style="color:#9c823c">A psicoterapia psicanalítica está focada na análise do inconsciente e na elucidação de conflitos internos, esta modalidade terapêutica propicia uma compreensão ampliada da estrutura psíquica do indivíduo, conduzindo a alterações substanciais e persistentes no seu estado psicológico e bem-estar.</h4>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-ooc7y1316">Quando alguém procura psicoterapia, geralmente deseja aliviar um sofrimento que já não consegue administrar sozinho. <a href="https://www.psicologalauraguerra.com.br/post/o-transtorno-de-personalidade-borderline-e-a-possibilidade-de-tratamento/#:~:text=O%20Transtorno%20de%20Personalidade%20Borderline%20e%20o%20tratamento%20com%20psicoterapia%20de%20orienta%C3%A7%C3%A3o%20psicanal%C3%ADtica.">Ansiedade persistente, dificuldade nos relacionamentos, sentimentos de vazio, impulsividade, tristeza prolongada ou conflitos </a>que parecem se repetir fazem parte das queixas mais frequentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicoterapia de Orientação Psicanalítica parte da compreensão de que esses sintomas não surgem isoladamente. Eles costumam representar a expressão de modos de funcionamento psíquico construídos ao longo da vida, especialmente nas primeiras relações afetivas. Por essa razão, o tratamento não busca apenas reduzir sintomas, mas compreender como eles se organizam, qual função exercem na vida da pessoa e de que maneira podem ser transformados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário da ideia de que a psicanálise consiste apenas em falar sobre o passado, a psicoterapia psicanalítica trabalha com aquilo que acontece no presente: a maneira como a pessoa percebe a si mesma, interpreta os acontecimentos, reage emocionalmente e estabelece vínculos. As experiências precoces são consideradas importantes porque influenciam esses padrões atuais de funcionamento, mas elas são compreendidas à luz da vida que o paciente vive hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante as sessões, o paciente é convidado a falar livremente sobre seus pensamentos, sentimentos, lembranças e dificuldades. Essa conversa permite que aspectos pouco conscientes de seu funcionamento emocional se tornem progressivamente mais compreensíveis. Muitas vezes, padrões repetitivos de relacionamento, formas automáticas de lidar com conflitos e emoções difíceis passam a ser reconhecidos pela primeira vez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A relação entre paciente e terapeuta ocupa um lugar central nesse processo. Situações emocionais que costumam aparecer em outros relacionamentos frequentemente se manifestam também na psicoterapia. Em vez de serem apenas interpretadas, essas experiências são observadas, compreendidas e elaboradas dentro de um ambiente seguro e estável. É justamente nessa experiência relacional que muitos pacientes começam a desenvolver maneiras mais saudáveis de lidar consigo mesmos e com os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas últimas décadas, pesquisas em psicoterapia, teoria do apego e neurociência têm mostrado que relações terapêuticas consistentes podem favorecer mudanças duradouras na regulação emocional, na capacidade de reflexão e na qualidade dos vínculos interpessoais. A plasticidade cerebral demonstra que novas experiências emocionais têm potencial para reorganizar circuitos envolvidos no processamento das emoções, oferecendo uma base científica para aquilo que a clínica psicanalítica observa há muitos anos: mudanças profundas costumam ocorrer gradualmente, por meio da repetição de experiências relacionais diferentes daquelas que contribuíram para o sofrimento inicial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora cada tratamento tenha um ritmo próprio, muitos pacientes relatam mudanças que vão além do desaparecimento de sintomas. Tornam-se mais capazes de compreender suas emoções, estabelecer limites, lidar com frustrações, construir relações mais estáveis e enfrentar situações difíceis com maior flexibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-3npvr82">A Psicoterapia de Orientação Psicanalítica é indicada para pessoas que desejam compreender de forma mais ampla seu sofrimento emocional e construir mudanças consistentes na maneira como vivem, pensam, sentem e se relacionam. Trata-se de um trabalho que respeita o tempo de cada pessoa, fundamentado na escuta clínica, na construção de um vínculo terapêutico sólido e na compreensão da singularidade de cada história.</p>
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		<title>Lições de Spinoza &#8211; O que podemos fazer para termos mais prazer pela vida?</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:29:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapias]]></category>
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					<description><![CDATA[Lições de Spinoza sobre o bem viver Havia um homem singular, um filósofo visionário que desafiou as convenções e buscou compreender a natureza da realidade, a existência de Deus e a essência humana. Seu nome era Baruch Spinoza. Nascido em Amsterdã, no século XVII, em uma família judaica sefardita (descendentes de judeus originários de Portugal), [&#8230;]]]></description>
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<h4 class="wp-block-heading" id="viewer-1e6tb"><strong>Lições de Spinoza sobre o bem viver</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-18qgn">Havia um homem singular, um filósofo visionário que desafiou as convenções e buscou compreender a natureza da realidade, a existência de Deus e a essência humana. Seu nome era Baruch Spinoza. Nascido em Amsterdã, no século XVII, em uma família judaica sefardita (descendentes de judeus originários de Portugal), sua vida foi marcada por desafios e uma profunda busca pela verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-ach4h">Spinoza viveu em uma época de grandes transformações intelectuais e conflitos religiosos. O século XVII foi marcado pela Revolução Científica, que abalou as estruturas tradicionais do conhecimento, e pelas tensões entre a Igreja e o poder político. Influenciado por figuras como Descartes, Hobbes e Galileu, Spinoza desenvolveu uma filosofia ousada e revolucionária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-9fq1f">Sua obra principal, &#8220;Ética&#8221;, publicada postumamente em 1677, é uma exploração profunda e sistemática dos fundamentos da existência. Nesse tratado, Spinoza busca compreender a natureza da realidade e do ser humano a partir de uma perspectiva racional e científica. Ele propõe uma visão monista, em que a realidade é concebida como uma única substância infinita e indivisível, que ele chama de &#8220;Deus ou Natureza&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-hd8q">Para Spinoza, Deus não é um ser transcendental, mas a própria substância que compõe todas as coisas. Ele argumenta que tudo o que existe é uma expressão desse Deus-Natureza, incluindo nós mesmos. Nesse contexto, a natureza humana é entendida como parte integrante desse todo, regida pelas mesmas leis universais e dotada de uma potência para agir. Essa potência de vida é a capacidade que temos de afetar e sermos afetados pelo mundo de maneira ativa e positiva. É a expressão do nosso poder de existir e criar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-15mop">Uma maneira de reconhecer a potência de vida em nós é observar nossas próprias experiências e emoções. Prestar atenção aos momentos em que nos sentimos realmente vivos, engajados e realizados, criativos. Pode ser durante uma atividade que nos traga prazer, uma conversa significativa com um amigo querido, ou ao contemplar a beleza da natureza. São esses momentos que nos conectam com nossa potência interna e nos lembram do nosso poder de ação e afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-e48ll">A noção dos afetos desenvolvida por Spinoza é essencial para entendermos as emoções e as paixões humanas, analisando sua origem, natureza e efeitos. Segundo Spinoza, os afetos são determinados por nossas interações com o mundo ao nosso redor. Somos afetados por coisas externas e, por sua vez, afetamos o mundo com nossas ações. Esses afetos, continua o filósofo, desempenham um papel essencial em nossa existência, influenciando profundamente nossa jornada de vida. Eles são poderosas forças internas que moldam nossa percepção, nossas ações, modos de agir, e nossos relacionamentos, dessa maneira, Spinoza compreende as emoções como respostas afetivas às interações que temos com o mundo ao nosso redor. Cada emoção representa uma reação única diante de determinadas circunstâncias, pessoas ou eventos. Elas podem ser intensas e momentâneas, como a alegria ou a tristeza, ou podem ser estados emocionais mais duradouros, como o amor ou o ódio.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-31iqf">Essas emoções têm um impacto direto em nossa experiência subjetiva do mundo. Elas influenciam nossa percepção, colorindo nossa interpretação dos eventos e das situações. Por exemplo, se estamos tomados pela raiva, é provável que enxerguemos os outros de forma negativa, interpretando suas ações como ameaças ou desrespeito. Por outro lado, se estamos cheios de amor e gratidão, tendemos a perceber o mundo com mais generosidade e compaixão. Além disso, as emoções também têm o poder de influenciar nossas ações e comportamentos. Elas nos impulsionam a agir de certas maneiras, orientando nossas escolhas e direcionando nossos esforços. Por exemplo, a emoção do medo pode nos levar a evitar situações consideradas perigosas, enquanto o desejo pode nos impelir a buscar algo que nos traga prazer. Spinoza também ressalta que as emoções não surgem isoladamente, mas estão interconectadas em uma rede complexa. Uma emoção pode desencadear outras, e todas elas podem se influenciar mutuamente. Por exemplo, a tristeza pode levar à solidão, e a solidão, por sua vez, pode aprofundar a tristeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-7c3ht">No entanto, apesar das emoções e das paixões influenciarem, de modo rotineiro, as nossas ações e pensamentos, Spinoza acredita que podemos desenvolver uma compreensão mais consciente e saudável dessas emoções, permitindo-nos agir de forma mais livre e autêntica. Ou seja, ele nos indica que ao reconhecermos nossas emoções atribuindo-lhes um nome, elevando-as ao estatuto da linguagem e da simbolização, conhecendo suas origens e seus efeitos, conseguiremos nos afastar da prisão que nos impele a agir sem propósito, movidos por uma força que desconhecemos de onde vem e que nos causa tanto desconforto. Por meio desse processo de autoconhecimento, podemos aprender a reconhecer nossas emoções, compreender suas causas e efeitos, e agir de forma mais alinhada com nossos valores e objetivos. Ao fazer isso, nos tornamos mais capacitados para lidar com as situações da vida, superar desafios e cultivar relacionamentos mais saudáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-1k7db">De acordo com Spinoza, a saúde psíquica reside em nossa capacidade de nos libertarmos das paixões tristes que nos aprisionam. Medo, tristeza e raiva são emoções que nos distanciam da harmonia e nos impedem de experimentar a plenitude da vida. Em contrapartida, ao cultivarmos alegria e amorosidade, encontramos o equilíbrio necessário para enfrentar os desafios com resiliência e serenidade. A saúde psíquica, para Spinoza, é alcançada quando conseguimos enxergar a verdadeira natureza das coisas e a aceitá-las como são. Ao abandonarmos expectativas irreais e ilusões, encontramos uma harmonia íntima com o mundo que nos cerca. Essa sincronia nos permite lidar com os altos e baixos da vida de maneira mais suave, fortalecendo nossa saúde mental e emocional. Spinoza nos desafia a transcender as limitações que impomos a nós mesmos e a descobrir a verdadeira natureza da existência. Sua filosofia é um convite para explorarmos nossa própria potência de vida e vivermos de forma mais conectada e realizada. No entanto, é importante reconhecer que a jornada de desenvolvimento proposta por Spinoza pode ser desafiadora. Em muitos casos, a análise e a psicoterapia são necessárias para compreendermos as complexidades de nossas dinâmicas emocionais. A compulsão à repetição, por exemplo, é um conceito psicanalítico que destaca a tendência humana de repetir padrões de comportamento e experiências emocionais não elaboradas. Esses padrões podem impedir nosso crescimento e amadurecimento, mantendo-nos presos a estados de sofrimento e desconexão que impedem nosso poder de agir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-bikb4">Agora que sabemos que temos uma potência para agir e que ela precisa ser desenvolvida em benefício da na nossa saúde psíquica, apresento algumas práticas que podem nos ajudar nesse processo:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li>Autoconhecimento: Compreender nossas características, valores, pontos fortes e áreas de crescimento é fundamental para direcionar nossa energia e esforços de maneira eficaz. Através da análise, podemos identificar o que nos traz alegria e satisfação e direcionar nossas atividades nessa direção.</li>



<li>Autocuidado: Cuidar de nós mesmos é essencial para nutrir nossa capacidade de afetar e sermos afetados de maneira ativa e positiva. Cuidar da saúde física, dos relacionamentos, cuidar da mente, reservar momentos para o deleite, o ócio, o descanso. Também implica em reservar tempo para atividades que nos tragam prazer e relaxamento, como hobbies, meditação ou simplesmente estar em contato com a natureza.</li>



<li>Relacionamentos significativos: Cultivar relacionamentos saudáveis e significativos com outras pessoas é uma fonte importante de amorosidade e apoio emocional. Buscar conexões autênticas, compartilhar experiências, expressar gratidão e praticar a empatia são maneiras de experimentarmos ser quem temos potencial para ser.</li>



<li>Resiliência emocional: Desenvolver habilidades para lidar com as adversidades da vida é essencial para manter nossa potência de vida. Isso envolve cultivar a capacidade de adaptar-se às mudanças, buscar soluções criativas, aprender com os desafios e manter uma perspectiva otimista. A psicoterapia de orientação psicanalítica e outras práticas de autocuidado são recursos valiosos nesse processo.</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-3jdvj">Ao reconhecermos e desenvolvermos nossa potência de agir, tomando as rédeas da nossa vida, sabendo reconhecer aquilo que nos afeta negativamente, baixando nosso potencial de vida, abrimos caminho para a alegria, a amorosidade e a serenidade. Essas qualidades se tornam recursos para enfrentar os desafios da vida com maior equilíbrio, resiliência e bem-estar psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-8bajh">Espero que este texto desperte seu interesse e incite sua curiosidade sobre o pensamento de Spinoza. Se tiver mais perguntas ou precisar de alguma orientação adicional, sinta-se à vontade para entrar em contato. Estou aqui para ajudá-la e ajudá-lo em sua jornada de crescimento e bem-estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-95ae6">Referência:</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-sjq1">Spinoza, Baruch de. <strong>Ética &#8211; </strong>Demonstrada à Maneira dos Geômetras. 1ª edição. Le Books [DP]</p>
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		<title>Traumas Podem Atravessar Gerações?</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:28:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A transmissão psíquica transgeracional é um fenômeno observado pela psicanálise vincular, que se refere à transmissão de emoções, conflitos, fantasias, segredos e identificações inconscientes de uma geração para outra dentro de uma mesma família. É um processo complexo que pode envolver diversos fatores, como a relação dos pais com seus próprios pais, como experiências de [&#8230;]]]></description>
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<h4 id="viewer-dm477" class="wp-block-heading">A transmissão psíquica transgeracional é um fenômeno observado pela psicanálise vincular, que se refere à transmissão de emoções, conflitos, fantasias, segredos e identificações inconscientes de uma geração para outra dentro de uma mesma família. </h4>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-dm477">É um processo complexo que pode envolver diversos fatores, como a relação dos pais com seus próprios pais, como experiências de vida dos pais e a relação dos filhos com seus pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-ct2jn">Segundo René Kaës (1996), um dos teóricos da psicanálise vincular, a transmissão psíquica transgeracional é um processo inconsciente, ou seja, muitas vezes as pessoas não estão cientes de que estão transmitindo essas emoções e conflitos para seus filhos e netos, podendo ocorrer por meio de gestos, atitudes, palavras ou até mesmo silêncios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-4a0ih">Talvez você esteja se perguntando se a transmissão psíquica transgeracional tem algo de positivo, já que, pelo que aparenta, é algo ao qual somos submetidos sem que nossa vontade possa interferir, então deveria nos oferecer coisas boas também. Sim, se você pensou isso saiba que a transmissão psíquica transgeracional pode ser tanto positiva quanto negativa. Uma transmissão positiva pode ser a transmissão de valores, tradições e comportamentos saudáveis ​​e adaptativos. Por outro lado, uma transmissão negativa pode ser a transmissão de conflitos, traumas, transtornos comportamentais e mentais, que não foram simbolizados e elaborados pelas gerações anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-5sn2r">Terezinha Féres-Carneiro (2006), outra teórica da psicanálise vincular, destaca a importância de se compreender a transmissão psíquica transgeracional para entender a dinâmica familiar disfuncional a fim de intervir de forma terapêutica. Ela afirma que a transmissão psíquica transgeracional pode ser interrompida por meio de uma reflexão consciente sobre as emoções e comportamentos transmitidos, e da elaboração dos conflitos e emoções inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-a2111">Um dos meios empregados para obtermos um panorama das transmissões psíquicas transgeracionais é o genograma. Esta ferramenta é utilizada em terapia familiar para ajudar a mapear a história e as relações familiares ao longo das gerações. É uma espécie de árvore genealógica, que inclui informações sobre a estrutura familiar, eventos vivenciados, relacionamentos e comportamento dos membros da família. A partir do seu uso podemos enxergar com mais clareza os tipos de vínculos, os padrões de relacionamento e adoecimento que se repetem ao longo do tempo, tendo mais condições de propor intervenções clínicas que favoreçam a reflexão sobre comportamentos e emoções do presente que estão sendo influenciados por ações do passado familiar e transformar essas ações em oportunidades para a mudança e o bem estar da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-43ik6">Referências bibliográficas:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>FÉRES-CARNEIRO, T. Psicanálise vincular: o sujeito na relação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.</li>



<li>KAËS, R. Transmissão da vida psíquica entre gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-c70bu">Arte<em> </em><a target="_blank" href="https://www.instagram.com/lauraguerra.art/" rel="noreferrer noopener"><em>@lauraguerra.art</em></a><em> </em>&#8211; Família</p>
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		<title>Teoria Familiar Sistêmica: conceitos e métodos.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[_adm-site@]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:27:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Família pode adoecer e sofrer Dentro da perspectiva da teoria familiar sistêmica, conforme delineado por Salvador Minuchin (1990), a família, enquanto unidade sistêmica, pode adoecer e sofrer devido a uma série de dinâmicas internas disfuncionais. Os conceitos da teoria familiar sistêmica enfatizam que as relações familiares são fundamentais para a saúde psicológica de seus [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-0huqq1491"><strong>A Família pode adoecer e sofrer</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-mwzm91489">Dentro da perspectiva da teoria familiar sistêmica, conforme delineado por Salvador Minuchin (1990), a família, enquanto unidade sistêmica, pode adoecer e sofrer devido a uma série de dinâmicas internas disfuncionais. Os conceitos da teoria familiar sistêmica enfatizam que as relações familiares são fundamentais para a saúde psicológica de seus membros e qualquer desequilíbrio nesse sistema pode levar a manifestações de sofrimento e adoecimento. A seguir exploraremos as razões pelas quais uma família pode adoecer e sofrer.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-f7vzw2462"><strong>Estruturas Familiares Fechadas e Enrijecidas</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-aqgk81493">Minuchin identifica que famílias com estruturas fechadas e enriquecidas têm dificuldade em se adaptar às mudanças e desafios, o que pode levar a um sofrimento psíquico coletivo. Essas famílias têm dificuldade para ajustar seus padrões de interação diante de novas circunstâncias, mantendo-se presas em dinâmicas disfuncionais que perpetuam o sofrimento.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-kgzx71495"><strong>Limites Inapropriados de acordo com a teoria familiar sistêmica</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-rsiqt1497">A teoria de Minuchin destacou a importância de limites claros e definidos dentro da família, tanto entre os membros quanto entre os subsistemas familiares (por exemplo, pais e filhos). Limites difusos ou rígidos demais podem impedir a expressão saudável de sentimentos e necessidades, causando conflitos, mal-entendidos e o adoecimento da família.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-5j0bv1499"><strong>Alianças e Coalizões Disfuncionais</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-j8jq21501">As alianças e coalizões dentro da família, que excluem ou sobrecarregam certos membros, criam desequilíbrios e sofrimento. Tais dinâmicas podem forçar os membros da família a assumirem papéis disfuncionais, como o de “paciente identificado”, onde uma pessoa é designada para manifestar os sintomas do desequilíbrio familiar.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-goqd61503"><strong>Falha na Adaptação a Transições de Vida</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-eko9m1505">Minuchin também aponta que o sofrimento e as disfunções familiares podem surgir da incapacidade de se adaptar especificamente às transições normais da vida, como nascimento de filhos, adolescência, casamento dos filhos, envelhecimento dos pais, entre outros. A resistência à reorganização dos papéis e à redefinição das relações durante essas transições pode resultar em estagnação e conflito.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-kcz5f1507"><strong>Resposta a Estressores Externos</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-o4gyh1509">A teoria sistêmica sustenta que as famílias não existem isoladamente, mas interagem constantemente com sistemas maiores (sociais, econômicos, culturais), desta maneira, a incapacidade de uma família se adaptar a estressores externos, mantendo ao mesmo tempo a coesão e o suporte mútuo, pode levar a uma sobrecarga de estresse, afetando a saúde mental e emocional de seus membros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-pyz5l1511">Segundo Minuchin, uma intervenção terapêutica focada na reestruturação das dinâmicas familiares pode promover muito equilíbrio e bem-estar. Ao identificar e modificar padrões disfuncionais de interação, a terapia sistêmica familiar visa não apenas aliviar o sofrimento psíquico, mas também fortalecer as relações familiares, promovendo um ambiente mais saudável e adaptativo para todos os seus membros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-8djnt">Tendo essas premissas em mente, podemos dizer que a terapia familiar sistêmica é uma abordagem terapêutica que se concentra no funcionamento da família como um todo, em vez de se concentrar apenas em indivíduos. Ela considera que as relações dentro da família são interdependentes e que as ações de um membro da família afetam o sistema como um todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-56qtk">A abordagem familiar sistêmica procura compreender como os padrões de interação entre os membros da família podem levar a comportamentos disfuncionais e como a mudança desses padrões pode ajudar a melhorar o funcionamento da família. Dentro desta perspectiva, nós trabalhamos com a família para identificar padrões disfuncionais de interação e ajudá-la a encontrar novas formas de se comunicar e se relacionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-6sfti">Referência:</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-5fdvf">MINUCHIN, S. Famílias e Terapia Familiar. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. São Paulo: Martins Fontes, 1990.</p>
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		<item>
		<title>Por que a pandemia de COVID contribuiu para o aumento de casos de ansiedade?</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Mar 2024 16:25:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Talvez você tenha notado um aumento de relatos de pessoas que se dizem ansiosas ou que já tenham tido um diagnóstico de transtorno de ansiedade. Pode ser uma colega de trabalho, um familiar, ou até mesmo você pode estar com sintomas de ansiedade que aumentaram durante e após a pandemia de COVID. A pandemia de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading" id="viewer-algfs">Talvez você tenha notado um aumento de relatos de pessoas que se dizem ansiosas ou que já tenham tido um diagnóstico de transtorno de ansiedade. </h4>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-algfs">Pode ser uma colega de trabalho, um familiar, ou até mesmo você pode estar com sintomas de ansiedade que aumentaram durante e após a pandemia de COVID.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-90ke4">A pandemia de COVID-19 trouxe uma série de desafios para a saúde mental das pessoas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve um aumento significativo nos níveis de ansiedade, depressão e estresse em muitos países desde o início da pandemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-eih94">No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, houve um aumento significativo nas consultas psicológicas e psiquiátricas desde o início da pandemia de COVID-19. No primeiro ano da pandemia, 2020, houve um aumento de 50% nas consultas psicológicas e um aumento de 20% nas consultas psiquiátricas em comparação com o ano anterior (Ministério da Saúde, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-5e48i">Uma das explicações para esse aumento é que a pandemia gerou muitas emoções e dúvidas em relação ao futuro, como a saúde, a economia e as relações sociais. O isolamento social e as restrições de mobilidade necessárias para o controle do contágio com o coronavírus, ocasionaram a sensação de solidão e desconexão social, levando ao aumento do estresse e da ansiedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-dk2s2">Além disso, a pandemia também expôs as desigualdades sociais e a deficiência dos sistemas públicos, agravando a sensação de impotência e desesperança em relação ao futuro, já presentes na sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-2tt4h">Devemos destacar que o isolamento social, uma das medidas necessárias para conter a propagação do vírus e proteger a saúde pública, foi um dos principais fatores que contribuíram para o aumento do sofrimento psíquico durante a pandemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-5j8qf">Embora essa medida precisasse ser adotada, os seus efeitos negativos na saúde mental das pessoas são evidentes, já que privaram-nas do contato social, desfazendo conexões afetivas importantes para a preservação do bem estar mental coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-btgc5">Para Erich Fromm, psicanalista e filósofo social, que estudou os efeitos da sociedade na saúde mental dos indivíduos, critica a falta de contato humano e de conexões na vida moderna, afirmando que este fenômeno pode acarretar problemas emocionais e psicológicos, tal como os observados durante e após a pandemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-c6liq">Segundo Fromm (2004), nossas emoções e o modo como nos comportamos sofrem a influência da sociedade e da cultura na qual estamos inseridos, neste sentido, o isolamento social durante a pandemia, a incerteza sobre a continuidade do trabalho, o medo e a insegurança em relação à própria saúde e dos seus familiares, o medo da morte, a falta de expectativa quanto ao fim da pandemia, são causas predisponentes para o agravamento dos estados de saúde mental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-27s1">Referências bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-rn2f">Fromm, E. (2004). O medo à liberdade. Paz e Terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="viewer-eblh">Ministério da Saúde. (2021). Atenção à saúde mental durante a pandemia de COVID-19. Acessado em 1 de abril de 2023, de &lt;<a target="_blank" href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/atencao-a-saude-mental-durante-a-pandemia-de-covid-19" rel="noreferrer noopener">https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/atencao-a-saude-mental-durante-a-pandemia-de-covid-19</a>&gt;</p>
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